Eterna, enquanto dura, a flor da lua

Documentário de Malu de Martino sobre Margaret Mee é joia rara sobre relevantes questões artísticas e ambientais

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h10

Foram erros clamorosos do júri, na Première Brasil do Festival do Rio de 2012 - ignorar concorrentes como Meu Pé de Laranja Lima e Margaret Mee e a Flor da Lua. Ao belo filme que Marcos Bernstein adaptou do livro de José Mauro de Vasconcelos, segue-se agora a estreia do documentário de Malu de Martino sobre a artista inglesa que pesquisou e ilustrou a flora da Amazônia e cuja busca da mítica flor do título virou uma espécie de meta estética e razão de viver. A flor da lua ultrapassa a própria beleza e ganha dimensão simbólica. Representa... Tudo.

Não é que o primeiro longa de Malu - Mulheres do Brasil, em 2006 - fosse ruim, mas era claramente uma obra de diretora principiante, com muita coisa para dizer e uma forma canhestra - muito episódica - de tratar personagens e situações. Houve uma melhora considerável quando Malu estreou Como Esquecer em 2010, abordando o homossexualismo feminino com sensibilidade e extraindo de Ana Paula Arósio, desglamourizada como nunca, uma de suas melhor atuações. A cultura inglesa atrai a cineasta, mas seu objetivo é sempre o diálogo com suas raízes brasileiras. Ana Paula lecionava literatura inglesa em Como Esquecer. Margaret é inglesa e busca a flor rara, que faz parte dos mistérios da Rain Forest.

A flor da lua nasce e morre numa única noite. Tem uma existência efêmera, mas sua beleza e perfume fazem a diferença no curto período de sua duração. Pense no que há de metafórico nisso, e na sua busca. No Festival do Rio e, depois, na Mostra de São Paulo, Malu explicava o que a atraiu no projeto - "Uma senhorinha de 79 anos num barco no meio do Rio Negro, procurando uma flor que só nasce à noite e vive numa única noite, numa determinada época do ano. É curioso? Desafiador? Aí está minha motivação. É uma clara mensagem de garra e pioneirismo. Todo mundo que se liga nas questões de preservação e conservação ambiental, em especial da flora, se comove com o filme".

Se a busca do filme é por uma flor que poucos têm o privilégio de ver, a própria Margaret Mee floresce, diante da câmera de Malu de Martino, por meio de depoimentos de amigos, colaboradores e discípulos, e também da narração de Patrícia Pillar com base em trechos dos diários da artista, hábil e delicadamente costurados pelo roteiro. Mas também existem os vídeos que resgatam a voz e os movimentos de Margaret. Pequenas histórias e detalhes pitorescos ajudam a compor um retrato que é tão sóbrio quanto afetuoso.

Há uma questão do afeto no cinema de Malu de Martino. Ana Paula Arósio despedaçava-se internamente, pela dor de um rompimento e um abandono. Como esquecer? - era a questão do filme. Talvez não o esquecimento, mas uma dor que começa a se esvair e fica menos intensa quando a vida vem. A trajetória de Margaret Mee, revista por Malu, não deixa de fazer a mesma pergunta. Como esquecer a figura e o exemplo de Margaret? O filme faz figura de testemunho, para tentar impedir o esquecimento.

Talvez pareça excessivo dizer que Margaret Mee e a Flor da Lua, com suas questões artísticas e ambientais, busca um ângulo novo - e delicado - para falar de assuntos que são graves. Mas o cinema de Malu de Martino também tem um perfume de Marcel Proust, de outra Margarida, a Duras, filmada por Alain Resnais. Comment oublier/Como esquecer, pergunta-se sem cessar Emmanuelle Riva, sobre seu amor da juventude e o horror da bomba atômica em Hiroshima, Meu Amor.

A diretora sempre achou que Margaret Mee e a Flor da Lua era um filme difícil num mercado voltado para os blockbuster. Mas o mercado tem seus nichos, mesmo para os filmes raros como essa delicada e efêmera (efêmera?) flor da lua que a experiência de Margaret e de Malu eternizam.

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