Dizem que devemos ver filmes americanos apenas para nos divertir: entretenimento puro de lógica aristotélica e trama mastigada com começo, meio e fim, que não deixa dúvidas ou final em aberto, produção tecnicamente impecável de efeitos mágicos, que torna o projetado mais fascinante do que o mundo ao redor.

02 de junho de 2012 | 03h07

Mas quem viveu em outros tempos costuma assistir para acompanhar as atuais noias da Corte e checar qual mensagem subliminar ela quer passar para a militância do mundo livre.

A indústria está conspirando em conluio com o império que mais se utilizou dela em tempos de guerra, ou... relaxa, se liga no tamanho da pipoca, lugar marcado, conforto da poltrona e esterilização dos óculos 3Ds?

Cinco das dez grandes produções atuais mostram que o mundo está por um fio. O planeta é geralmente ameaçado por mudanças climáticas, asteroides ou ETs. A distância da Guerra Fria trocou o pavor das bombas caírem em mãos erradas e mal-entendidos pela ciência dos erros da nossa industrialização, incapacidade de uma ação ou consenso coletivo e do terrorismo.

Nas outras cinco produções, são zumbis e vampiros que aparecem para atormentar a paz entre suburbanos reféns do mercado financeiro.

Todas seguem um mandamento: o cidadão periférico deve estar alerta à invasão clandestina e alienígena. E espelham a polarização da política local. Podem ser divididas em democratas e republicanas.

Democratas: a falência da ética devido à corrupção do mercado exige um poder centralizador, forte, que prioriza a diplomacia. Em Independence Day, exemplo de filme democrata, é o presidente quem lidera o esquadrão de caças a abater a nave inimiga após exaustiva negociação.

Republicanas: o cidadão comum se junta a seus pares e, com a excelência do arsenal privado, guardado na garagem da casinha do subúrbio ou na camionete, arregaça as mangas e parte pra luta, já que o Estado é incompetente. Marte Ataca e Guerra dos Mundos são dois exemplos de filmes republicanos. Como Armageddon, em que petroleiros são enviados ao espaço e salvam a humanidade ao pousarem num meteoro com perfuradoras e uma potente bomba.

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A série de filmes Homens de Preto (MIB) é nitidamente democrata. Aliás, a melhor piada da versão em cartaz, a terceira, é quando o agente J (Will Smith), de terno e gravata, pega o achocolatado de uma menina, que diz baixinho para a mãe: "O presidente acabou de roubar o meu copo".

Ela é protagonizada por terráqueos funcionários públicos - um carteiro, profissional mais odiado pelos americanos, um policial e uma médica legista -, que trabalham numa organização com hierarquia e tentam entender a psique de diversos alienígenas. Criam regras para um convívio pacífico através da diplomacia, sem abrir mão do ferro e fogo se a paz universal for ameaçada.

Traduzindo: é como nos vemos no mundo globalizado, em que a diversidade ocupa os mesmos espaços, as grandes cidades, deve ser respeitada e, apesar das diferenças históricas, viver em harmonia.

MIB 3 desponta como a maior bilheteria do ano, superando Os Vingadores. Com roteiro genial de Ethan Coen (o mesmo de Beavis and Butthead e Madagascar), agente J e agente K voltam ao tempo, final dos anos 60, para salvar o planeta.

The Factory, coletivo de Andy Warhol no quinto andar do 231 East 47th Street, Manhattan, é frequentado por alienígenas. Mick Jagger é ser de outro planeta, cuja missão na Terra é procriar com o maior número de membros da nossa espécie. Todas as modelos são ETs, e agente J se pergunta como não havia reparado nisso antes.

Warhol é, na verdade, um agente da organização dos Homens de Preto, que, disfarçado com sua peruca loira, não sabe mais o que fazer para fingir que é artista. "Estou tão entediado que comecei a pintar bananas e latas de sopa. Me tirem daqui, não aguento mais ouvir sítar", pede aos colegas.

MIB 3 é a voz do movimento dos direitos civis, que deve ecoar graças ao Tea Party, movimento republicano conservador que não dá folga. E há uma correção protecionista: o carro do filme anterior, um Mercedes, foi trocado por um Ford Made in USA.

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A imaginação não tem limites. Em agosto, estreia Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, ou "presidente by day, hunter by night" (presidente de dia, caçador à noite), como diz o slogan, filme que transforma o pai da nação e libertador dos escravos em escudo contra aqueles que querem o sangue dos concidadãos. Será que Lincoln luta contra a xenofobia para unir o país dividido ou apenas defende a poupança do cidadão comum dos sanguessugas de Wall Street?

Em Cowboys & Aliens, ETs atacam uma vilinha com vaqueiros, bêbados e renegados do Velho Oeste, que se juntam aos índios para derrotá-los. Neste caso, os ETs só queriam o nosso ouro. Uma espécie de Lehman Brothers verde em forma de barata.

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A fixação pelos ETs voltou com tudo depois do 11 de Setembro. Seres de turbante, esquisitões, que falam outra língua e acreditam em outros deuses costumam fazer estrago na arquitetura da civilização.

O contato não é nada pacífico. Se nós, quando encontramos uma civilização mais fraca (ou menos armada), como astecas, incas, tendemos a dominá-las e afanar suas riquezas, os ETs mais evoluídos não seriam diferentes. ET não quer mais "go home".

Em Os Vingadores, atacam Nova York sem piedade. Em Battleship, naves alienígenas agem no Pacífico. Em ambos, há prédios e torres desabando, engolidas em si, e fumaça dos escombros atravessando ruas apertadas. Pânico e corre-corre lembram... Você sabe.

As mensagens subconscientes de Battleship são tão sofisticadas que penso em pedir ajuda aos universitários.

Dias de hoje. Americanos e japoneses fazem manobras militares perto de Pearl Harbor. Alienígenas nos atacam. Não estão pactuados com coreanos do Norte. Querem dominar o planeta e destruir todos, até os chineses.

O que há de mais moderno em tecnologia armamentista e naval não consegue repelir. O que consegue? Um navio museu da 2.ª Guerra, o encouraçado USS Missouri, ancorado no cais, que é colocado para funcionar em tempo recorde e pilotado pela galera de hoje e por veteranos, guias do museu, que usam gírias e táticas do passado. Deu pra entender a mensagem?

Talvez devêssemos respeitar nossos soldados de guerras antigas, analógicas, valorizar sua contribuição, afinal, são responsáveis pela paz e avanços do presente. Nossos?! Meu Deus, já estou me sentindo um deles. Melhor me preocupar mais com o sal da pipoca. Ou voltar pros enigmas do cinema alternativo.

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