Estupro e aborto inspiram obra exposta na Bienal de Veneza

Artista britânica Tracey Emin mais uma vez causa furor no mundo das artes

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 18h00

A artista britânica Tracey Emin mais uma vez está causando furor no mundo das artes, dessa vez com sua exposição na 52.ª Bienal de Arte de Veneza, onde retrata vários pênis e mulheres de pernas abertas em obras inspiradas na sua própria experiência com abuso sexual e aborto. Em Borrowed Light, Emin apresenta o corpo e a própria sexualidade como fonte e objeto da sua arte. Detalhes íntimos da sua vida, como o abuso sofrido durante a infância e dois abortos, são apresentados pela primeira vez nesta série que ela classifica como a mais clássica da sua carreira. "É o trabalho mais feminino que realizei até agora", disse durante a vernissage no pavilhão britânico na Bienal, vestida com um terninho branco e camisa listrada com os primeiros botões abertos, mostrando o sutiã preto abaixo da roupa. "É muito sensual, bem definido graficamente e, ao mesmo tempo, bonito e difícil." Tracey utiliza bordado, neon, desenho e pintura para mostrar seu realismo emotivo. Apenas numa das seis salas onde está a nova exibição feita especialmente para a mostra veneziana estão 19 desenhos de pênis, numa referência ao período em que foi violentada. Em outra, chamada Abortion Watercolours, estão 27 aquarelas sobre os abortos feitos, sendo que o mais duro foi o de 1990, que a devastou física e mentalmente. A culpa sentida é expressada no prefácio desta série em que ela conta como se sentiu culpada e triste por ter abortado. "Certamente estou vivendo o ápice da minha carreira", disse a artista nascida em Londres em 1963. "À medida que estou ficando mais velha, meu trabalho está indo para um caminho muito mais pessoal e intimista." Badalada e exclusiva Tracey é a segunda artista britânica a ganhar uma mostra individual no pavilhão do Reino Unido, localizado no Giardini da Bienal. A primeira foi Rachel Whiteread, em 1997. Tratada como uma das grandes celebridades da edição da Bienal deste ano, a artista inglesa teve uma das mais concorridas inaugurações. Ela também foi a estrela de uma das mais badaladas e exclusivas festas que ocorreram em Veneza antes da abertura oficial da Bienal para o público no domingo. Entre os convidados especiais que estiveram em Veneza apenas para encontrá-la e apreciar suas obras estavam Elton John e Naomi Campbell. Entre os trabalhos mais provocantes de Tracey estão My Bed, que visitou galerias em metade do mundo e causou controvérsia quando foi exposto na mostra do Turner - o prêmio mais importante de arte concedido no Reino Unido -, em 1999, por mostrar sua própria cama desfeita, com lençóis, absorventes e camisinhas usadas, garrafas de vodka vazias e restos de cigarros. Contribuiu também para a fama internacional Everyone I Ever Slept With From 1963 to 1995, uma pequena barraca bordada com os nomes de todas as pessoas que dormiram com ela. Mostra provocativa "Eu sempre desenhei e pintei. Mas a maioria das pessoas me conhece apenas por causa da cama e da barraca", disse ela desapontada. "A barraca era sobre intimidade e a noção de dormir. Já a cama era sobre minha intimidade, meu medo, como uma mulher desmaiando." Segundo Tracey, que sempre usou sua própria experiência de vida como tema de seus trabalhos, a exibição em Veneza é mais clássica devido a importância da mostra e por estar representando toda a Grã-Bretanha. "Acho que desta vez ela não queria polemizar", disse a curadora japonesa Yuko Maeda. "É uma mostra provocativa. Reflete o que ela sente no momento, a relação dela com o sexo e o próprio corpo." Durante entrevista coletiva aos jornalistas presentes na Bienal, Tracey agradeceu as primeiras mulheres que conseguiram entrar com sucesso no mundo essencialmente masculino da arte. "Estas mulheres me ajudaram a fazer hoje o que eu gosto", afirmou. "Isto aconteceu há 30 anos com pessoas que trabalharam fortemente para dar uma face feminina à arte." A artista inglesa disse que ainda não consegue entender porque as mulheres ganham muito menos do que os homens. De acordo com ela, esta é a grande pergunta que precisa ser respondida: por que os trabalhos de homens com a mesma reputação e mesmo idade das artistas mulheres são sempre vendidos por muito mais dinheiro.

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