Estudos em torno de Villa

Coletânea traz análises originais sobre o compositor apresentadas na França

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h09

Com 825 itens, Heitor Villa-Lobos bate Jobim, Chico e Caetano, exibindo no mínimo o dobro de materiais como livros e gravações em áudio e vídeo na Biblioteca Nacional da França. Foi este o modo que Danièle Pistone encontrou para afirmar que ele "é, de longe, o mais célebre compositor brasileiro (...) mais famoso talvez do que os heróis da MPB".

A frase não surpreende. Ao contrário, é um sintoma de que hoje conhecemos bem melhor o compositor. Um encontro patrocinado pelo Itamaraty, embaixada brasileira em Paris e a Universidade Paris-Sorbonne realizou-se em 2009 na capital francesa. A pretexto dos 50 anos de morte de Villa-Lobos, 16 especialistas - musicólogos internacionais e brasileiros, intérpretes como Sonia Rubinsky e o historiador Luiz Felipe de Alencastro - escreveram artigos agora publicados na França em edição de capa dura.

O livro oferece aguda análise do Rudepoema por Sonia Rubinsky, que gravou a integral de sua obra pianística e anota, ao contrário do senso comum, que "as interpretações percussivas demais" da obra "não valorizam as estruturas melódicas por causa de uma leitura incorreta do papel dos acentos". O musical Magdalena tem pela primeira vez uma leitura atenta de Cécile Auzolle, que o coloca corretamente lado a lado com West Side Story.

A importante produção para violão é examinada por Pascal Terrien. E Michel Fischer, em Converser avec Intelligence, sai do folclore que ronda a história inventada por Villa de que dormia no berço embalado por sua avó cantarolando Bach e por isso o tinha nas veias, como justificativa para a maravilhosa série das Bachianas Brasileiras. Fischer mostra que ele usa a fuga como conversa, tal qual no choro, mas constrói afinidades estruturais entre o texto bachiano e sua imaginação. Nos "échos contemporains", destaca-se o ótimo artigo de José Bannwart que examina a influência determinante do Villa em Almeida Prado.

Pena que a impressão truncada do livro misture o artigo de Fischer com o do finlandês Ero Tarasti, autor da mais suculenta análise de Villa-Lobos em livro, que o interpreta à luz do que chama de "semiótica existencial". Erro imperdoável numa edição luxuosa, publicada três anos após o evento que a inspirou e que, aliás, deveria ter uma versão a preço acessível, porque envolve patrocínio do governo brasileiro.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL), ENTRE OUTRAS OBRAS

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