Estudo trata do silêncio musical

Especialista analisa 4'33', polêmica composição 'muda' do americano John Cage

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Tacet é a palavra latina que se usa para indicar que o cantor ou músico deve ficar "em silêncio", ou seja, não tocar. Tacet é a única palavra presente nos três movimentos na partitura de 4"33"", peça do compositor americano John Cage (1912-1992). Ela estreou em 29 de agosto de 1952 num recital do pianista David Tudor no Maverick Concert Hall, ao sul de Woodstock. A cidade ficaria famosa no verão de 1969, por dar nome ao festival onde reinaram Janis Joplin e Jimi Hendrix; em 1952, era sede apenas de um pacato festival de música de câmara.

Tudor sentou-se ao piano, fechou a tampa do teclado e olhou para o cronômetro. Por duas vezes, nos 4 minutos e 33 segundos seguintes, levantou e abaixou a tampa indicando mudança de movimento. Não fez nenhum barulho. Seguiu a "partitura", virando páginas que não exibiam nenhuma nota musical. O silêncio do primeiro minuto deu lugar a ruídos de todo tipo: gente reclamando, saindo, mexendo-se na cadeira, tossindo. No final, Tudor recebeu uma saraivada de gritos, perguntas, reclamações. Até que um cidadão lá do fundão gritou: "Aí, gente boa de Woodstock, vamos botar esta turma pra correr da cidade."

Já se contam às centenas os artigos e livros sobre esta obra. Primeiro recebida como factoide, hoje está para a música da segunda metade do século 20 como a Sagração da Primavera, de Stravinski esteve para a primeira. Exagero? Não para Kyle Gann, ex-crítico do Village Voice e professor de música do Bard College, que acaba de lançar No Such Thing As Silence - John Cage"s 4"33"". Por que dedicar um livro a uma peça em que não há nenhum som previsto na partitura? Gann diz que o problema é de conceito. Cage revelou que esta foi a obra que lhe tomou mais tempo, quatro anos, porque "trabalhei nela como conceito". No Aurélio, silêncio é definido como "interrupção de ruído". Errado. Ao menos para Cage: silêncio são "os sons não-intencionais".

A ideia era abrir a mente para o fato de que todos os sons são música, tanto os intencionais, tocados pelos intérpretes, quanto os não-intencionais, formados pelos ruídos ambientes, tanto naturais quanto das pessoas. Afinal, diz Gann, "a diferença entre arte e não-arte é uma questão de percepção".

Com frequência, 4"33"" é qualificada como a peça mais mal compreendida de Cage. "Para mim", escreve Gann, "foi muito bem assimilada pelas vanguardas no século 20." Afinal, excetuando-se A Sagração da Primavera, nenhuma outra teve descendência tão vasta.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA: MÚSICA E CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO (ALGOL)

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