Estudo revela compreensão inovadora da obra de Machado de Assis

José Luiz Passos arrisca um largo passo atrás, a fim de recuperar a potência inicial do gênero romance

João Cézar de Castro Rocha, O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2014 | 19h23

 

No sentido amplo da palavra, Romance com Pessoas é um livro excepcional.

De um lado, José Luiz Passos desenvolve uma leitura marcante do conjunto da obra de Machado de Assis, com destaque para um entendimento inovador de seus nove romances. De outro, seu ensaio distancia-se radical e deliberadamente dos métodos dominantes no estudos literários, em geral, e dos estudos machadianos, em particular.

Vejamos como se reúnem as duas excepcionalidades, esclarecendo a força da original análise da "imaginação em Machado de Assis". Passos guia o leitor, explicitando seu projeto: "a despeito da imensa variedade de perspectivas sobre o autor, ainda não dispomos de um vocabulário conceitual sensível para descrever as principais situações narrativas que ele nos propõe".

O propósito do ensaio é precisamente esboçar tal vocabulário. Porém, o caráter fragmentário do livro não deixa de ser desconcertante. Ele é composto por uma instigante colagem de breves estudos de personagens e situações ficcionais, além de notas reveladoras acerca de fontes tanto de Machado quanto de Passos: aqui incluídos os nomes de Santo Agostinho, David Hume, John Locke, e, claro, à frente de todos, William Shakespeare.

Ciente do risco, no instante "Pessoas", o autor se converte em autêntico Virgílio, assumindo o papel de condutor da leitura: "A meio caminho deste ensaio, é tempo de fazermos uma pequena revisão (...). O que significa dizer que um romance é sobre a pessoa humana? Procurei defender a noção de que os romances de Machado são sobre o modo como indivíduos conduzem suas vidas".

Destaque-se a ousadia da empresa. A escrita ensaística de Passos parece muito mais próxima da imaginação crítica de um Edmund Wilson e de um Lionel Trilling do que dos arrevesados debates contemporâneos.

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No fundo, o autor arrisca um largo passo atrás, a fim de recuperar a potência inicial do gênero romance. Perfeitamente expressa, aliás, no programa de Henry Fielding, definido no Tom Jones (1749): "o Exemplo é uma forma de Retrato, no qual a Virtude aparece como se fosse um Objeto Visível, e nos surpreende com a Ideia daquele Encanto que, segundo Platão, encontra-se presente na Virtude em si mesma". Se a filosofia – ou a teoria da literatura, sussurra o autor – traduz em conceitos a matéria vital, a literatura nela se constitui, oferecendo ao leitor um espelho que, ao ser atravessado, devolve-lhe uma imagem mais nítida de sua dimensão propriamente moral. Eis como Passos a entende: "autoexame deflagrado pela suspeita dos motivos alheios".

Em tom menor, a mesma vocação existencial foi retomada pelo narrador proustiano: "assim muda nosso coração, na vida, e esta é a mais amarga das dores, mas é uma dor que só conhecemos pela leitura, em imaginação". Passos inventa sua aposta pascaliana: a literatura possui um valor epistemológico fundamental, embora negligenciado nas últimas décadas. Trata-se do sentido existencial inerente ao ato de escrever e, sobretudo, de ler ficção. Daí, a pertinência da pergunta que soa improvável aos ouvidos críticos coevos: "saber se o romance pode nos tornar melhores pessoas". Na perspectiva aqui delineada, a pergunta nada tem de ingênua.

Pois bem: como se não bastasse, Passos valoriza um conceito que a crítica brasileira transformou num Judas em sábado de aleluia: "Proponho que, seguindo uma sugestão de John Searle, façamos do realismo uma prática que nos oferece a extensão imaginada do nosso conhecimento e de nossas crenças sobre nosso próprio mundo".

O gesto se impõe, pois é preciso assegurar uma ponte entre o ato de leitura e o autoexame, as dissimulações, os cálculos e as desilusões dos personagens machadianos. Então, e o achado revela o escritor, romance com pessoas. No texto, claro está, mas também do outro lado: ler uma narrativa, ensina Passos, também é ler-se a si mesmo. Esse caminho de torna-viagem é o percurso por ele iluminado.

E há mais: uma análise inspirada da gênese do personagem Brás Cubas, visto como um compósito de personagens dos romances da chamada primeira fase. Ainda: páginas bem pensadas acerca da centralidade de Shakespeare na literatura e na visão do mundo de Machado. Não é tudo: a exemplo do que fez Wolfgang Iser em seu estudo sobre Laurence Sterne, Passos constrói seu entendimento da ficção em diálogo com Hume e Locke, sublinhando a relevância da noção de empatia.

José Luiz Passos realizou uma façanha crítica: muito jovem, já construiu um espaço só seu. Território generosamente franqueado ao leitor que decidir acompanhá-lo nessa bela ruptura em que o alarde é substituído pelo senso cavalheiresco, quase aristocrático, da exata proporção.

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ E AUTOR DE ‘MACHADO DE ASSIS: POR UMA POÉTICA DA EMULAÇÃO’

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