Estudo radical sobre o mal-estar no mundo

Melancolia mergulha o espectador em uma experiência intelectual e sensória já no prólogo. À maneira da ópera, apresenta, como prelúdio, um resumo do que virá, com seus tableaux vivants, personagens perdidos num jardim de sonho, em imagens pontuadas pela música de Tristão e Isolda, de Wagner.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Depois disso, o filme se desdobra em duas partes, intituladas com os nomes das duas irmãs - Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Na primeira, vemos Justine em seu casamento. A festa burguesa se prepara, enquanto a noiva, melancólica, com tudo ao alcance das mãos, encarrega-se de estragar sua vida, peça por peça. A demolição dá-se não apenas no âmbito pessoal.

Esta se completa na segunda parte, a de Claire. Justine arruinou-se a tal ponto que precisa até ser alimentada na boca para sobreviver. Quem cuida é a irmã, que é seu oposto. O que Justine tem de desordenada, Claire tem de centrada. Há, no entanto, a ameaça pairando sob a forma de um planeta, chamado Melancolia, que ameaça chocar-se com a Terra. Os cálculos dizem que tudo está sob controle, mas sabemos como são os cálculos.

Essa é uma maneira de ver este filme simples em sua compreensão imediata. Mas que tem, ao que parece, outras implicações e leituras. A segunda parte é a metáfora da primeira. Von Trier busca o tema da melancolia como comentário do mundo. Não fala em depressão, o chamado mal contemporâneo, que significa uma "doença", cuja causa pode ser encontrada. Já a melancolia é o mal do mundo, sem que qualquer causa se apresente para explicá-lo. É o mal-estar por definição; não tem objeto e sustenta-se por si. É letal.

A originalidade de Von Trier é tirar da melancolia esse caráter individual e retratá-la como o fim de um mundo. O homem contra si mesmo é o cataclismo fundamental. Donde essa estranha e pungente peça de ficção científica, aparentada a Solaris e Stalker, de Tarkovski. Não apenas pela estética, mas pela preocupação de entender, em chave metafísica, a inquietação fundamental do presente.

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