Estudo discute o papel do pensamento psicanalítico na passagem para a cultura

GIOVANNA BARTUCCI

GIOVANNA BARTUCCI É PSICANALISTA, , AUTORA DE FRAGILIDADE ABSOLUTA. ENSAIOS SOBRE PSICANÁLISE, CONTEMPORANEIDADE (PLANETA), ENTRE OUTROS LIVROS, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2012 | 02h11

Da Clínica do Desejo a Sua Escrita, de Wilson Alves-Bezerra, parte da noção de traveling theory, de Edward Said - a qual sustenta que "o lugar da ideia é o deslocar-se" -, para falar sobre a presença (ou ausência) do pensamento psicanalítico na passagem da clínica à cultura e, consequentemente, sobre a incidência do desejo na cultura - no caso, a partir do estudo da obra de quatro escritores nucleares. Fruto da tese de doutoramento do autor, defendida no ano de 2010 na Uerj, o livro discute a escrita do desejo a partir de lugares e tempos distintos, com finalidades variadas.

Assim, no contexto do Modernismo, Wilson chama atenção para a presença do "desejo do bom burguês", posto em cena sob a forma do romance familiar, em Mário de Andrade (1843-1945); para o desejo da mulher, na escrita de Nelson Rodrigues (1912-1980); para o desejo do negro, em Frantz Fanon (1925- 1961), psiquiatra e autor martinicano em cuja obra se conjugam clínica e reflexão teórica, marcadas pelo momento histórico; e para o desejo do homossexual, em Severo Sarduy, no âmbito das dificuldades do pensamento analítico em Cuba e da saída do escritor para o autoexílio francês.

Com efeito, circunscrito à fase inicial do pensamento freudiano no Brasil e à impossibilidade deste e da reflexão lacaniana ingressarem no Caribe, Wilson define seu trabalho como "uma história da entrada da psicanálise na América Latina que considera o desejo". E conclui: "É preciso uma certa posição em relação ao desejo para poder fazer dele uma escrita que não seja puro jogo verbal, que convoque novos sentidos, que mobilize o sujeito em seu escrever".

O que torna o trabalho de fato singular, contudo, é a capacidade de Wilson, professor do Departamento de Letras da Ufscar, de, por meio de um mergulho profundo em suas fontes (quase sempre primárias), ressurgir com relações improváveis e imprevistas, possíveis apenas porque "aceita a nacionalidade como conceito poroso e movente, deslocando-se para (muito) além dos purismos geográficos".

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