Estudo de personagens atrai o autor

É o dado mais curioso da biografia de Christopher Hampton, pelo menos para espectadores de língua portuguesa - ele nasceu nos Açores, de pais ingleses. Em sucessivas entrevistas para o repórter do Estado - pelo menos quatro -, sempre lamentou não dominar o português, conhecendo os grandes autores dessa língua somente por meio de traduções. Hampton é dramaturgo, roteirista, cineasta.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Sua fama, ele a deve essencialmente a Ligações Perigosas, que adaptou do romance epistolar de Choderlos de Laclos, primeiro para o teatro e depois para o cinema, recebendo o Oscar da categoria em 1988. Para o diretor Stephen Frears, Hampton adaptou também Chérie, de Colette, oferecendo outro belo papel a Michelle Pfeiffer, que já havia sido Madame de Tourvel nas Ligações.

Falando sobre a adaptação de Colette, Hampton disse que volta e meia fechava os olhos e imaginava Michelle - ela! - dizendo as frases de Colette. "É uma autora que escreve muito bem, minimalismo com musicalidade, e esse era o desafio, manter a elegância e sutileza da sua escrita."

Também era um pouco o desafio de Ligações Perigosas, transposto (o livro) para o cinema. Houve antes a versão de Roger Vadim, com Gérard Philippe e Jeanne Moreau (As Ligações Amorosas), e simultaneamente com Frears o checo Milos Forman fez Valmont, com Colin Firth e Annette Bening. Em todos os casos, os filmes oferecem uma série de grandes papéis, mas os que marcam são os de Valmont e Merteuil, que transformam a arte da sedução numa estratégia militar de conquista. Embora "miscast", John Malkovich consegue ser tão brilhante quanto Glenn Close, mas ela é a rainha de Ligações Perigosas.

O título é revelador e pode ser aplicado a toda a obra de Christopher Hampton. O que o atrai é sempre o embate verbal e físico que travam entre si personagens espremidos por convenções sociais. Basta ver o filme que ele próprio dirigiu - Carrington, com Emma Thompson e Jonathan Pryce. O filme é sobre a pintora Dora Carrington, que tem medo de assumir a própria sexualidade, o que faz somente ao se ligar ao escritor Lytton Stacey. Ele é excêntrico - e gay. Não consegue assumir nenhum compromisso, mas é com ele que Dora experimenta o amor (e o prazer), para desatino dos homens que a desejam.

No teatro ou no cinema, o estudo de personagens é o que atrai o autor. E não importa para onde ele está escrevendo - "O personagem é sempre a chave de tudo. O palco tem suas convenções, o cinema também. O que é preciso é respeitar cada espaço para fazer aflorar o personagem."

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