Estrelas de Hollywood em novos DVDs

Houve eventos em todo o mundo paralembrar, esta semana, os 40 anos da morte de Marilyn Monroe.Aquela loira permanece, até hoje, como um dos maiores mitossexuais do cinema. Ao morrer, Marilyn estava gorda, tinhaestrias - e daí? Billy Wilder resumiu o caso dizendo que haviaalgo nela que só a câmera podia captar, algo que até ele, quetrabalhou duas vezes com a estrela (em O Pecado Mora ao Ladoe Quanto Mais Quente Melhor), só percebia quando via suaimagem projetada na tela. Marilyn era a perfeita encarnação deuma carnalidade exuberante. E marcou, no cinema americano dosanos 1950, a humanização das esfinges e das vamps, tipo GretaGarbo e Marlene Dietrich. Contemporânea do fenômeno MarilynMonroe, outra estrela da mesma época virou mito num sentidoquase oposto. Audrey Hepburn era magra e elegante, sofisticadaquando outras (ou a outra) era vulgar. Audrey era um anjo nomundo laico. Steven Spielberg percebeu isso e deu-lhe o papelque foi uma homenagem em Além da Eternidade. Não deixa de ser curioso que esteja chegando justamenteagora às locadoras e lojas especializadas um pacote de DVDs deAudrey. Há pouco, chegou outro pacote com os discos digitais dosêxitos de Marilyn. Foram 13 filmes de Marilyn. São quatro deAudrey. Você pode lamentar que falte a comédia de William Wylerque deu o Oscar à atriz, no começo dos anos 1950: A Princesa eo Plebeu. Ou que faltem filmes como My Fair Lady (MinhaBela Dama), de George Cukor, ou Uma Estrada para Dois, deStanley Donen, que foi seu grande papel dramático. Mas o que opacote oferece é de primeira. Lá estão: Sabrina, de BillyWilder, Cinderela em Paris, de Stanley Donen, Bonequinhade Luxo, de Blake Edwards, e Quando Paris Alucina, deRichard Quine. Um pacote cujo filme mais fraco, o último, éótimo só pode ser saudado com um acontecimento. Um acontecimentoà altura do mito de Audrey Hepburn. Num certo sentido, ela foi a anti-Marilyn. Toda umageração de virgens que hoje povoam as telas - Julia Ormond, quetrabalhou no remake de Sabrina, Meg Ryan, talvez SandraBullock - foi buscar inspiração na bonequinha de luxo. A mulherque instituiu o modelo ´reta´ quando o mundo adorava derraparnas curvas de MM podia ser uma virgem na tela, mas fora dela, osbiógrafos garantem que a pobre Marilyn teria de aprender comAudrey as artimanhas da sedução. A magrinha, garantem eles,abateu metade de Hollywood. A outra metade não lhe interessava:eram mulheres ou gays. Não era só nos filmes (Sabrina, Cinderela emParis, Quando Paris Alucina, Charada) que Audrey tinhaum caso de amor com a capital francesa. Na vida, também. Nascidaem Bruxelas, numa respeitável família burguesa, ela estudoudança e arte dramática em Londres e Paris, estreando numaobscura comédia francesa de Jean Boyer, Americanos em MonteCarlo. Fez mais dois ou três filmes pouco marcantes e entãoWilliam Wyler a colocou no papel da princesa que foge para viverum dia (e uma noite) de aventura em Roma. A Princesa e oPlebeu (ele é Gregory Peck) consagrou instantaneamente Audrey.Mal terminou sua participação no filme, ela foi fazer Gigi noteatro, indicada pela própria criadora da personagem, Colette. E ainda no teatro, fez Ondine, de Giraudoux, representando eminglês e francês. Anjo - No cinema, ela esculpiu a imagem de anjo - masera um falso anjo. Havia certa perversidade escondida por trásda inocência daqueles grandes olhos que cintilavam candidamentenum rosto anguloso. Sabrina queria dormir com o patrão, asecretária de Quando Paris Alucina também - e o patrão, nosdois filmes, é William Holden, com o acréscimo de HumphreyBogart no primeiro -, Holly Gollightly, a personagem de Audreyem Bonequinha de Luxo, sonha com os diamantes da Tiffany´s ea bibliotecária que realiza o sonho de Cinderela e vira modelosó para ir a Paris e conhecer os existencialistas também não éexatamente uma ingênua. Todos esses filmes possuem qualidades - e dois sãoexcelentes: o de Edwards e o de Donen, uma obra-prima do musical-, mas o que vale mesmo é a celebração da arte da atriz que, emmais de cem anos de história do cinema, melhor personificou umconceito de elegância. Audrey virou um ícone, e não só da moda,até sua morte, em 1993. Para concluir, duas historinhasexemplares. No começo dos anos 1970, Luchino Visconti, quesempre sonhou com Audrey para sua adaptação de Marcel Proust,Em Busca do Tempo Perdido, convidou a atriz para o papel quefoi feito por Silvana Mangano em Violência e Paixão. Audreyachou demais interpretar uma perua que ostenta riqueza e aindadivide o amante com a filha. Disse ao grande Visconti que seuscript era ´pornográfico´, prova de que até os anjos se enganam.A outra historinha é curiosa em outro sentido: Marilyn, aanti-Audrey, era a atriz que Truman Capote, criador dapersonagem, queria que interpretasse Holly Gollightly. Conseguemimaginar como seria Bonequinha de Luxo com MM?Serviço - Coleção Audrey Hepburn. Quatro filmes: Sabrina (Sabrina), deBilly Wilder, 1954; Cinderela em Paris (Funny Face), de StanleyDonen, 1956; Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany´s), deBlake Edwards, 1961, e Quando Paris Alucina (Paris When itSizzles), de Richard Quine, 1963. DVDs da Paramount, R$ 137.

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