Estrela militante

 

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

 

CANNES - Sua imagem ornamenta o cartaz do 63.º Festival de Cannes, que termina hoje. Só isso tem garantido que, nas últimas duas semanas, o rosto de Juliette Binoche tenha estado com frequência na mídia de todo o mundo. Quando o presidente do festival, Gilles Jacob, lhe pediu autorização para usar a foto de Brigitte Lacombe, ela imediatamente concordou, por amizade a Cannes e também por ver neste reconhecimento uma forma de agradecer aos grandes cineastas com quem trabalhou. Nem Jacob nem Juliette sabiam, ainda no ano passado, que o filme que ela interpreta - Copie Conforme, de Abbas Kiarostami - estaria na competição. "Uma coisa não tem nada a ver com a outra", ela garante.

Mas Juliette, por suas lágrimas, ganhou ainda mais espaço na imprensa, esta semana. Foi durante a coletiva de Copie Conforme. Jornalistas de todo o mundo interpelaram Abbas Kiarostami, pedindo que comentasse a prisão de seu ex-assistente, Jafar Panahi. O autor de filmes como O Balão Branco e O Círculo está preso há três meses no Irã, sem acusação formal, mas suspeito de atividades antigovernamentais. Kiarostami fez uma descrição bastante dura da repressão no governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Juliette chorou.

Na quinta-feira à tarde, o repórter do Estado teve o privilégio de conversar durante meia hora com Juliette Binoche. O cenário era a praia Chérie-Chérie, na Croisette. Era final de tarde, Juliette encerrava seu dia de trabalho. É bela, mas sem glamour. Uma beleza natural, que vem do interior, passa pelo olhar - ela é uma rara estrela que olha o interlocutor nos olhos - e se manifesta no sorriso que pode virar gargalhada. Quando ri, ela franze o nariz. Fica irresistível.

Juliette Binoche seleciona muito os filmes que faz. Ela descreve a filmagem de Copie Conforme como uma experiência rara. Filmou na Toscana, na Itália, uma das regiões mais bonitas do mundo. Admite que trabalhou duro para criar essa mulher que bombardeia seu homem com cobranças. O filme é sobre afeto, sobre relações. Discute o que pode manter unido ou separar o casal. Para a atriz, Copie Conforme é produto de sua cumplicidade com o diretor. Mas nem ela sabe explicar o mistério de certas partes, quando alguma coisa passa pelo filme, por seu sorriso.

"Le mystère, ça ne s"explique pas." O mistério não precisa de explicação. E as lágrimas por Jafar Panahi? "Foram espontâneas, e sinceras." Transformaram Juliette Binoche na estrela militante de Cannes em 2010. Ela se define como "militante, malgré moi". Não queria ser, mas a necessidade a obriga a tomar partido. "É uma questão de responsabilidade. Estamos no maior festival de cinema, é o foro para se lutar por liberdade de expressão. Os países precisam de seus artistas. O Irã precisa de Jafar. Como não se solidarizar com ele?"

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