Estréia versão polonesa de "Vestido de Noiva"

Em 1943, o polonês Ziembinski inaugurou o moderno teatro brasileiro com uma concepção revolucionária, para a época, de Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. Nesta quinta-feira, no Teatro Sesc Anchieta, com o auxílio de legendas eletrônicas, o público poderá assistir à estréia da montagem da mesma peça, desta vez sob direção de Eduardo Tolentino de Araújo - na mesma premiada concepção criada por ele para o Grupo Tapa -, com um elenco inteiramente formado por atores poloneses.O espetáculo - um sonho da produtora polonesa radicada no Brasil, Urszula Groska, acalentado por três anos - estreou este ano no Teatro de Lodz, fez apresentações em Cracóvia e Varsóvia e, nas apresentações de São Paulo e do Rio, encerra um histórico ciclo de intercâmbio Brasil/Polônia. Mas a julgar pelas cenas apresentadas,no palco do Sesc Anchieta, o espetáculo vale ser visto para além da curiosidade histórica.Afinal, em cena vão estar alguns dos melhores atores poloneses, integrantes do elenco de três companhias de Lodz, seleciondos especialmente para a montagem. São três gerações de atores, desde artistas veteranos de grande prestígio no teatro, cinema e na televisão, como o ator Bronislaw Wroclawski (pai de Alaíde e Lúcia) e a atriz Boguslawa Pawelec (Madame Clessi) - ambos já tendo participado de filmes do diretor de K. Diwslowski -, até a jovem atriz de 23 anos Natalia Strzelecka, intérprete de Alaíde, recém-saída da universidade e já premiada.Dificuldades - O talento e a sólida formação dos atores foram qualidades fundamentais para a superação de obstáculos como o idioma e a natural dificuldade - sentida até por atores brasileiros - de mergulhar no universo rodriguiano. A qualidade da tradução foi uma das primeiras dificuldades detectadas por Tolentino - que se valia da ajuda de uma intérprete para dirigir o elenco. "Os atores comentavam que o texto era muito literário as falas não eram coloquiais", lembra Tolentino."Descobri então que frases como ´Morreu. Não morreu?´, por exemplo, foram traduzidas por ´Ela é um cadáver. Não vive mais.´" Com a ajuda dos atores descobriu um verbo cuja sonoridade (algo como umárua), resultava em ritmo e musicalidade muito mais próximos do nosso idioma e, conseqüentemente, da intenção original do autor."Conforme fomos descobrindo o ritmo da peça, fomos penetrando muito melhor no universo dos personagens", afirma Jrek Czop, de 32 anos, um dos atores da geração intermediária, intérprete de Pedro. "No início paramos muitas vezes para discutir a tradução do texto", lembra Czop. Mas essa troca de idéias acabou enriquecendo a relação diretor/elenco. Além da barreira do idioma, havia ainda as diferenças culturais, nem sempre fáceis de ser explicadas."É um trabalho análogo ao que a gente faz quando encena Chekhov ou Ibsen no Brasil, a busca das similaridades; só que neste caso eu tinha de achá-las em outra cultura", argumenta Tolentino. "No começo foi difícil explicar como se poder rir numa peça que fala da morte." Mas não impossível. Tanto que no meio de uma explicação ao elenco, a atriz Zofia Uzelac (Dona Lígia) concluiu com rara intuição: "Mas isso que você está querendo é a vida como ela é", exclamou. "É exatamente isso", exultou Tolentino.Alguns atores do elenco já tinham vivido a experiência de trabalhar com um diretor estrangeiro. "Mas de tão longe, foi a primeira vez", brincou o experiente Wroclawski. "E, entre muitas outras coisas, foi interessante para nós sabermos que um polonês contribuiu tão fortemente para mudar o teatro brasileiro", completa. Wroclawski fez questão de ressaltar o que chamou de "a forma original" como Tolentino dirige os atores, imediatamente apoiado por todo o elenco.Registre-se que todos integram elencos de companhias fixas em teatros oficiais e, por isso, estão acostumados a montar uma peça em quatro semanas. "Tolentino veio com uma proposta muito interessante de trabalho, porque no início não dizia nada do que eu tinha de fazer, eu deveria descobrir", comenta Boguslawa. "Ele dava chaves para que nós as acionássemos", diz Czop. "Foi uma experiência muito importante para mim, abriu minha cabeça, uma verdadeira sorte para quem inicia a carreira", comenta Natalia.Vestido de Noiva - Tragédia. De Nélson Rodrigues. Direção Eduardo Tolentino de Araújo. Dramaturgia Reinaldo Amaro Mesquita. Espetáculo com legendas eletrônicas. Duração: 1h30. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 10,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 256-2281. Até domingo.

Agencia Estado,

19 de julho de 2000 | 23h20

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