Estréia segunda parte de "Os Sertões"

No palco do Teatro Oficinaespalham-se enxadas, pás e carrinhos de mão. Não, não fazemparte da cenografia do espetáculo que estréia no sábado, naqueleteatro, O Homem, transposição cênica do livro de Euclides daCunha Os Sertões, que vem sendo criada, em etapas, pelodiretor José Celso Martinez Corrêa com atores do Grupo UzynaUzona. A cenografia de "O Homem é singular, como veremos, masenxadas e pás não fazem parte dela. Estão sendo utilizadas paracavar profundos buracos no palco/corredor do Oficina. Ao ladodeles, montanhas de terra vão se acumulando. Sobre elas, caemfagulhas da solda de um andaime colocado bem lá no alto. "Ali,nessa passarela que estamos fazendo próxima à janela de vidro,será a Igreja Nova de Canudos", explica Zé Celso. Numa rapidez inacreditável, os buracos já estão cobertoscom tampas de madeira. Viraram alçapões e agora as dobradiçasdas tampas vão sendo disfarçadas com barro pelos atores."Canudos nasceu ameaçada. Havia muitos túneis, trincheiras, umacidade por baixo da outra", explica Zé. Num outro canto, ailuminadora Cibele Forjaz ajeita um refletor. Pouco depois,veremos o efeito de seu trabalho numa cena em que Euclides daCunha mostra o destino trágico dos antepassados de AntônioMaciel, o beato Conselheiro, líder dos sertanejos na resistênciaem Canudos. As sombras dos corpos da família Maciel, mulheres,velhos e crianças, são vermelhas. Rostos, roupas, nada ficavermelho. Só as sombras. Um efeito arrepiante. Mas até que se chegue lá, o que há é o caos no palco doOficina. Um tumulto de objetos, vozes, corpos, sons deinstrumentos musicais, gritos, risos e correrias de crianças.São 19 horas. Um ensaio geral deveria ter começado às 18 horas.O espetáculo surpreende a cada nova cena. Há momentos degenialidade, como Conselheiro feito Hamlet, vendo nocirco-teatro Oficina a encenação da lenda de que ele matou suamulher e sua mãe. Nada inventado. A lenda existiu. Está lá, naobra de Euclides. O que Zé faz é criar uma encenação circense,divertidíssima, para contar a lenda, com a participação especialde 35 crianças carentes do Projeto Bexigão. Simples e grandioso, por exemplo, o recurso de escadassobre escadas numa das construções de Canudos. Fantástico oefeito visual das tendas a um só tempo acampamento, favela eCanudos. Mas o que mantém a atenção é que não há efeito peloefeito. Euclides escreveu, o coro repete, fielmente. SobreConselheiro: "Agiu passivo, como uma sombra. Mas esta condensavao obscurantismo de três raças. E cresceu tanto que se projetouna História..." Nesse momento, no Oficina, a sombra do corpo deZé Celso, encarnado em Conselheiro, cresce tomando quase todo opalco do Oficina. Como em Canudos, no Oficina, de quase nada,com poucos recursos, se cria um grande espetáculo. Que mereceser visto. E mais é bom não falar, para não estragar surpresas.Serviço - Os Sertões. Direção José Celso Martinez Corrêa. Dur.3h30. Sábado e domingo, às 18 horas. Dia 23, sessão extra às14h30. R$ 20,00. Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel.3104-0678. Até 23/12

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