Estréia sábado, no Ágora, peça que discute violência urbana

Quase todas as culturas comungam o conceito de que a ?retenção? de energias ou o ?recalque? de sentimentos são prejudiciais ao homem, assim como a repressão de idéias ?adoece? organizações sociais. É sempre mais saudável falar, colocar na mesa, debater. Estar diante de uma abordagem honesta e aberta de temas, em geral amenizados, é uma das sensações que se têm na platéia de Estação Paraíso, que estréia sábado no Ágora. No palco vazio, a cenografia de Sylvia Moreira, toda em preto-e-branco, reproduz uma estação de metrô com seus mapas e cartazes de propaganda. A trilha sonora, de Aline Meyer, faz pensar numa São Paulo sob ataques maciços do PCC - tiros, sirenes, caos. Subitamente, entra em cena, com surpreendente segurança e tranqüilidade, um negro muito bem vestido num terno claro, com várias sacolas brancas de compras. Ele parece preparar-se para ali mesmo passar a noite quando surge um homem branco, de terno escuro que, ao contrário do negro, parece trazer com ele, dentro dele, o clima de insegurança e violência externa. Começa aí um embate - o branco está armado e imediatamente ?se defende? da possível ameaça do negro -, que percorrerá temas que vão do racismo à violência urbana, passando pela precarização do emprego. E nada discursivo. Tudo se dá numa atmosfera densa e muito teatral, que prende a atenção do espectador, que se surpreende com as situações que surgem ao longo desse embate. O texto é de Celso Frateschi e chegou a participar do projeto do Ágora Metrópolis, sobre o século 21. "Buscamos com esse projeto peças que levantassem perguntas sobre o homem contemporâneo. Não temos respostas, não há distanciamento histórico para isso, estamos no olho do furacão. Só podemos compartilhar questionamentos", diz Roberto Lage, o diretor do espetáculo, que tem como (bons) intérpretes Dárcio de Oliveira - o ator negro - e Osvaldo Raimo, o homem mais velho. "Meu personagem é um homem tosco, preconceituoso, que tem um tumulto dentro dele. Mas o grande desafio é alcançar o que Lage pede, um grande acúmulo interior e ao mesmo tempo uma interpretação densa, mas contida", diz Raimo. Dárcio vai na mesma linha. "É um exercício estimulante buscar as filigranas; ouvir tudo o que eu ouço dele, mas reagir com gestos secos, falas secas, ódio contido." Não fosse o caos urbano, aqueles dois homens talvez nunca se encontrassem. Mas seu encontro provoca reflexões. Estação Paraíso. 75 min. 14 anos. Ágora Teatro (90 lug.). Rua Rui Barbosa, 672, telefone (11) 3284-0290, metrô São Joaquim. Sáb., dom., 2.ª e 3.ª, 21 h. R$ 40. Até 17/6

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