Estréia peça de Vaclav Havel

Atual presidente da República checa o dramaturgo Vaclav Havel durante muito tempo foi um cidadão fora-da-lei. Opositor do regime comunista, Havel foi preso várias vezes e, na década de 60, escreveu uma trilogia - A Audiência, Vernissage e A Petição - cujo tema era a absurda situação de represssão política em seu país.Inédita nos palcos brasileiros, A Audiência estréia amanhã, no Teatro Ágora, sob direção de Soledad Yunge, com Edu Guimarães e Laerte Filho no elenco. "Apesar de ter sido criada na década de 60 e explorar uma situação política muito específica, o texto não perdeu a atualidade", garante a diretora.Num tom que tangencia o absurdo - filiação teatral do autor -, A Audiência tem como personagens Vanek, um intelectual dissidente, espécie de alter ego do autor, e o dono de uma cervejaria. Preso, Vanek é obrigado a abandonar a atividade intelectual por um trabalho braçal: passa o dia empilhando barris de cerveja."A peça ultrapassa a abordagem ideológica para atingir questões essencialmente humanas", diz Soledad. Vanek odeia seu novo trabalho e está fragilizado. O dono da cervejaria, um homem rude, sente-se numa situação privilegiada e procura tirar proveito do seu súbito poder. "O cervejeiro convida o intelectual para uma conversa, a audiência do título, uma espécie de teste de resistência moral e ética para o dissidente político", antecipa Soledad. Certamente, o dramaturgo deve ter passado por testes semelhantes em sua vida. Filho de uma rica família burguesa, Havel nasceu em Praga em 1936 e entrou para o mundo do teatro como iluminador e cenógrafo. Um dos líderes do movimento político conhecido como Primavera de Praga, foi preso pela primeira vez em 1968, com a invasão soviética na Checoslováquia. Foi novamente detido ao liderar o movimento Carta 77, em defesa do respeito aos direitos humanos no seu país. Ao todo, Havel amargou cinco anos de detenção e suas peças ficaram censuradas durante anos. Quando esteve no Brasil, Havel falou sobre uma espécie de declaração de princípios que adota como dramaturgo. "Escrever efetivamente para alguém", foi o primeiro deles. "Apoiar-me sempre no que é familiar e escrever sobre o quadro concreto de minha existência pessoal", continuou Vaclav. Esses princípios, certamente, nortearam a criação de A Audiência.A Audiência. Comédia de Vaclav Havel. Direção Soledad Yunge. Duração: 50 min. Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h. Ingressos: R$ 10. Teatro Ágora (R. Rui Barbosa, 672, tel. 284-0290). Até 18/6

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