Estréia peça de época de Pedro Brício no Sesc Santana

Pedro Brício é um autor ousado. Sua peça de estréia, O Homem Que Era Sábado, era uma comédia de absurdo, tinha apenas quatro personagens, a história se passava num apartamento, mas foi acusada de ser muito obscura, de difícil decodificação. "Era muito fragmentada", admite o autor. Daí, ao escrever a segunda, estava decidido a contar uma história com estrutura dramatúrgica clássica - personagens, cenas, atos, ações encadeadas e movidas por conflitos -, tudo para compensar os "problemas" da primeira. Foi o que fez em A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica. Porém escreveu uma "peça de época" e com 11 atores. Dificilmente um autor iniciante "comete" algo assim. Quem conhece o panorama do teatro brasileiro sabe quanto é difícil conseguir produção para um espetáculo de grande porte. Pois a ousadia de Pedro Brício foi plenamente recompensada. A montagem dessa peça concorre à edição carioca do 18.º Prêmio Shell de Teatro em cinco categorias: autor e diretor (ele em dupla função), figurino (Rui Cortez), iluminação (Tomás Ribas) e musica original (Felipe Rocha). E o texto ainda foi publicado no sexto volume da coleção Teatro Brasileiro, da Hamdam Editora. A partir de hoje, o paulistano poderá conferir A Incrível Confeitaria do Sr. Pellica no Teatro do Sesc Santana. Sávio Moll vive o Sr. Pellica, um doceiro que se considera um criador genial, mas vê sua confeitaria prestes a falir por conta da uma guerra que assola a região. Nessa situação trágica para a comunidade, bolos e outras guloseimas viram consumo supérfluo. Sua única saída é preparar uma torta para vencer um concurso que o rei realiza - se ganhar, o prêmio será suficiente para levantar o negócio -, mas não tem dinheiro nem para comprar os ingredientes necessários. Recebe então a proposta do burguês Bellone que propõe dar o dinheiro, em troca da mão da filha de Pellica, Isabella (Nina Morena). Bem, para começar, obviamente uma "peça de época" escrita por um jovem dramaturgo não é "de época". "Claro. O interessante de criar uma fábula é que ela serve para qualquer tempo e lugar", diz o autor que faz doutorado na Universidade de Teatro do Rio, a UniRio, e está desenvolvendo uma pesquisa sobre o Iluminismo. Se o tom fabular solicita ao espectador que faça ele próprio a ponte entre passado e presente, a encenação de Brício se encarrega de brincar com esse "ser ou não ser" de época. Por exemplo, o contra-regra tem um figurino "gótico", só que do jeito que é usado pelos jovens contemporâneos. Ele comanda uma mesa de som no palco, e acaba interferindo na trama. E há espaço até para ironias como a do personagem que se enrola ao usar o verbo na segunda pessoa do singular - "vós não estarias, is, eis, interessados em investir num negócio altamente lucrativo?" "Não quis fazer uma tese no palco, de jeito nenhum, mas um dos embates da peça é entre razão e fé", comenta Brício. "A estrutura da peça é a mesma das comédias de Molière e Goldoni, que surgem após a Commedia dell´Arte, nos séculos 16 e 17. Mas ação se passa no século 18, quando o Iluminismo se estabelece, o homem passa a ser considerado o centro do universo e a fé é questionada." Bem, sem dúvida, o homem burguês começa aí a ganhar o centro do universo, com o seu poder centrado no dinheiro. E isso é apenas uma das coisas que saltam aos olhos na leitura desse texto, de humor cáustico. O medo de que uma montagem equivocada transformasse em escracho o humor farsesco, porém poético, dessa comédia foi o que levou Brício a dirigir o próprio texto. "Não é peça para ser tratada como comédia de costumes. Claro, tem leveza no ritmo, no jogo dos atores, no visual, mas não no tema, que é mais ambicioso." Por essa ambição, o autor conta que foi um alívio perceber o sucesso entre o grande público, ao realizar temporadas populares. Brício conseguiu reunir um bom elenco e realizar a montagem com apenas R$ 40 mil vindos do FAT, fundo municipal de apoio ao teatro criado no Rio, em moldes semelhantes à Lei de Fomento paulistana. "Foi uma reivindicação da classe, discutida em muitas reuniões e implementada por Miguel Falabella." A Incrível Confeitaria do Senhor Pellica. 100 min. 12 anos. Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, 6971-8700. Sáb., 21 horas; dom., 19 horas. R$10. Até 2/4

Agencia Estado,

11 de março de 2006 | 09h16

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.