Estréia peça com texto inédito de Jean Giradoux

Relembrar a carreira de um artista, não raro, significa percorrer uma trilha que começa íngreme nos anos de aprendizado, alarga-se no auge da experiência e termina em declive. Pois é bem diferente a trajetória de Cleyde Yáconis. Aos 80 anos, ela arrebatou público e crítica por sua brilhante interpretação da morfinômana Mary Tyrone em Longa Jornada de Um Dia Noite adentro. Quem viu jamais esquecerá sua requintada construção dessa personagem.Numa carreira plena de boas atuações, nada mais natural que venham as homenagens na maturidade. Pois ao receber o Grande Prêmio da Crítica 2003, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), por Longa Jornada, Cleyde Yáconis provocou no júri uma atitude inédita: a ressalva de que não se tratava de uma premiação pela carreira, pelo conjunto dos trabalhos - ainda que tal prêmio fosse merecido -, mas sim pela interpretação de Mary Tyrone, que mereceria prêmio especial, ainda que fosse a primeira atuação de sua vida.Pois a julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado, ela pode repetir esse feito agora, aos 83 anos, como protagonista de A Louca de Chaillot, que estréia sábado no Sesc Santana. São nada menos do que 17 atores em cena, sob o comando de dois jovens diretores, Ruy Cortez e Marcos Loureiro, que se revezam em outros tantos personagens para contar uma fábula de grande contundência crítica. Mas também repleta de humor e lirismo.Escrita por Jean Giradoux, A Louca de Chaillot subiu ao palco pela primeira vez em 1945, em Paris, sob direção de Louis Jouvet e fazia referência aos nazistas e à Resistência. Mas resistiu ao tempo. Cerca de 20 anos depois chegou às telas com Katharine Hepburn no papel central. No Brasil ainda é texto inédito nos palcos profissionais. E não foi fácil para a equipe conseguir apoio para colocá-la em cena. Apenas uma semana antes da estréia, era ainda numa acanhada sala do Teatro de Arena que o elenco improvisava como podia para ensaiar ainda sem a cenografia de André Cortez. Na primeira cena, que transcorre num bar, o público acompanha a conversa de um grupo de especuladores. Homens ricos que, sem qualquer melindre, exibem uns aos outros suas negociatas como troféus. E planejam um outro grande negócio: a prospecção de petróleo no solo de Paris. Para isso, terão de destruir a cidade, mas quem se importa?Enquanto discutem, são interrompidos por músicos, malabaristas, uma surda-muda, gente a quem tratam com desprezo. Mas são essas pessoas que vão derrotá-los, comandadas por Aurora, a louquinha do bairro. "Ela é uma personagem difícil de fazer porque é uma mulher frágil demais e a um só tempo um aço. Tudo ao mesmo tempo, junto", diz Cleyde. Nenhum espetáculo se salva apenas pela presença de uma grande atriz. Nesta peça, cada ator tem participação expressiva e importante. Aurora, ao tomar conhecimento do plano dos homens maus, arma uma trama para liquidá-los, mas precisa de aliados. É muito divertida, por exemplo, a cena em que Aurora convoca as outras loucas, Gabriela, Josefina e Constância, para consultá-las."Esta peça, para mim, é muito atual, porque desmonta na cara da gente - naquela conversa da primeira cena - o modo de pensar dos neoliberais", diz Beatriz Tragtenberg, a louca de Saint-Sulpice. "No dia-a-dia, a gente não escuta uma conversa dessas, eles não falam assim em público. Antigamente, a gente dizia que 200 famílias mandavam no mundo. Atualmente, acho que são 80, as coisas pioraram. Essa concentração de renda provoca miséria, há um desprezo pela vida."Ainda assim, a opção de matar os homens maus, natural numa fábula, pode chocar. ´Aurora não mata os especuladores, apenas os atrai para uma armadilha. Eles caem porque são ambiciosos´, argumenta Ruy Cortez. É dele a iniciativa da montagem, a partir de sugestão do ator e crítico Alberto Guzik, que assina a tradução do texto. A Louca de Chaillot. 135 min. 12 anos. Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, 6971-8700. Sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 17/12

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