Estréia o musical "Elis, a estrela do Brasil"

O caos toma conta do teatro doCentro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. No estreitocorredor que leva à entrada lateral do teatro é preciso espremero corpo para passar entre os músicos - um deles treinando no seuvioloncelo. No palco, um berço de criança, cabos de iluminação,refletores e vários atores que cantam a um só tempo testandomicrofones e a acústica do espaço. O aparente caos prenuncia aestréia em São Paulo do musical Elis, Estrela do Brasil,sobre a trajetória pessoal e artística da cantora Elis Regina. Diogo Vilela, o diretor do espetáculo, espera as coisasse ajeitarem para começar o ensaio. "Na hora tudo sempre dácerto", diz. Ao lado de "sua" Elis, a atriz Inez Viana, eletorce para que se repita em São Paulo o fenômeno da temporadacarioca. Para se ter idéia, a bilheteria do CCBB do Rio só abriutrês vezes. "Os ingresssos esgotaram-se poucas horas depois daabertura da bilheteria - 9 mil ingressos vendidos em trêshoras", afirma a produtora Ana Luíza Lima. Como os ingressospodiam ser comprados com antecedência máxima de um mês, foramtrês aberturas de bilheteria durante a temporada. "As pessoasiam para a fila de madrugada e esperam sentadas em suas cadeirasde praia", conta Vilela. "O público tem vontade de matar a saudade de Elis. Eminha intuição foi tomar como base o show Saudades do Brasil", diz Vilela. O musical tem texto de Douglas Dwight e FátimaValença, mas partiu de uma longa pesquisa, de mais de um ano,acompanhada de perto por Vilela, que assina o roteiro doespetáculo. "Procurei criar uma montagem autoral, semcompromisso com a realidade, mas com imagens simbólicas querevelassem a essência da artista Elis", diz Vilela. Emborareconheça que trabalhou por uma aproximação de imagem entre Ineze Elis, afirma ter evitado a idéia do "cover". Vilela decidiu convidar Inez ao vê-la atuando nummusical carioca sobre Cole Porter. "Levei um susto. Fiquei nadúvida se daria conta da tarefa", diz Inez. "Tenho um registrode voz parecido com o dela, mas não queria fazer o ´cover´ e simum trabalho de dentro para fora. Passei a ouvir Elis o diainteiro. Claro que não canto como ela, ninguém poderia." A trajetória de Elis é narrada desde a infância, emPorto Alegre, até o auge da carreira. "O musical não tem acarpintaria que as pessoas esperam. Minha tentativa foi inseriras músicas na sua vida, sem compromisso com cronologia", avisao diretor. Assim, por exemplo, a canção Como Nossos Pais éinterpretada por Elis ainda adolescente, em meio a uma discussãocom a família. "Com seu primeiro salário ela comprou um sofá euma vitrola. Eu achei isso muito bonito e significativo em suavida." São cenas como essa que vão traçando o perfil da artistaa um só tempo generosa e temperamental. As passagens de tempo são dadas por projeções de imagensque trazem a ambientação cultural, comportamental, social epolítica em cada fase da carreira de Elis. "Ela chega ao Rio,por exemplo, no dia 31 de março de 1964, com uma carta derecomendação do então deputado Leonel Brizola", conta Inez. Antes disso, o público acompanhará as primeirastentativas da atriz de cantar no rádio, em Porto Alegre, com oapoio de sua mãe (Malu Valle) e de seu pai (Marco Oliveira)."Na primeira vez ela não consegue cantar, fica muda. Na segunda, canta, mas sangra pelo nariz." A partir daí o musical recriamomentos marcantes de sua carreira como a participação noFestival da Canção da TV Record cantando Arrastão, aparceria com Jair Rodrigues no programa O Fino da Bossa, asbrigas com o tropicalismo e o encontro artístico com Tom Jobim.E, na vida pessoal, o casamento com Ronaldo Bôscoli e CésarCamargo Mariano e o nascimento dos três filhos. Diogo evitou abordar a polêmica em torno da morte deElis. "Não por nenhum tipo de censura, mas porque isso nãointeressa", diz. "Em síntese, o musical conta a pungentehistória de uma mulher que nunca separou a arte de sua própriaexistência. E Elis nos mostra que um artista, para ser grande,não pode separar vida e arte.Serviço - Elis - Estrela do Brasil. De Douglas Dwight e FátimaValença. Direção Diogo Vilela. Duração: 2h50 (com intervalo). Dequinta a domingo, às 18h30. R$ 15,00. Centro Cultural Banco doBrasil. Rua Álvares Penteado, 112, São Paulo, tel. 3113-3651.Até 26/5.

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