Estréia 'O Baile', um musical no compasso da nossa história

Peça que inspira clássico de Ettore Scola é adaptada aos padrões brasileiros

Ubiratan Brasil, do Estadão,

04 de setembro de 2007 | 15h46

Dança, teatro ou aula de história - na verdade, a peça O Baile, escrita pelo francês Jean-Claude Penchenat e que inspirou um belíssimo filme do italiano Ettore Scola de 1983, é uma rica combinação desses elementos. "Tanto o trabalho do cinema como as montagens teatrais se tornaram referências em muitas escolas de atores como exemplo de interpretação", comenta o diretor José Possi Neto, responsável pela montagem que estréia nesta quarta, 5, no Teatro Cultura Artística. Veja também: Conheça as 89 canções de 'O Baile'  A essência da história continua a mesma: um passeio por 40 anos de história por meio de canções e figurinos a partir do encontro de um grupo de pessoas que se reúnem para dançar. Não há diálogos, a trama é narrada apenas a partir da expressão corporal dos atores, além de uma seleção de músicas e uma infinidade de figurinos. "Todos os detalhes são importantes para mostrar a mudança de época", afirma Possi.  A montagem nacional segue a orientação do diretor francês Jean-ClaudePenchenat (do grupo Théâtre du Campagnol), que detém os direitos de O Baile e que convidou Ettore Scola para fazer o filme: todas as versões da peça devem retratar a história do país em que forem encenadas. Assim, o espetáculo que estréia hoje, depois de uma bem-sucedida temporada carioca, apresenta quatro décadas da história do Brasil - do suicídio de Getúlio Vargas até a reconquista da democracia.  Diretas Já Assim, enquanto os dançarinos rodopiam pelo salão, lá fora se comemoram as conquistas das Copas de 1958, 62 e 70, vislumbra-se a inauguração de Brasília, teme-se pelo golpe militar de 64, lamenta-se o AI-5 e, finalmente, vibra-se com a luta pela reconquista da democracia com o movimento Diretas Já, nos anos 1980.  Possi observa que alguns detalhes do original francês estão preservados, apenas aqueles que enriquecem a dramaturgia, como um pisão no pé ou um casal se agarrando durante uma dança. E, se no filme de Scola um dos bailes é interrompido por um bombardeio da 2.ª Guerra Mundial, na versão brasileira há uma manifestação contra a ditadura militar invadindo o salão. "Do ponto de vista cultural, O Baile é um retrato de diferentes épocas reveladas através da moda e do comportamento social, influenciados pelas culturas européia e americana", conta. O diretor lembra que encenação nacional conseguiu alguns privilégios em relação a outras montagens internacionais. "Para o quarto baile, intitulado Dos Estudantes, pedimos aos detentores dos direitos que liberassem o elenco para cantar", lembra o diretor. "O motivo é muito justo: como se passa no período entre 1964 e 70, fase em que a censura se impôs com violência, as músicas selecionadas pregam a resistência, daí a necessidade de serem cantadas." 89 canções São dessa época, por exemplo, clássicos como Andança, de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, e O Sol Nascerá, de Cartola. Na temporada carioca, aliás, esse se revelou um dos mais comoventes momentos da peça, especialmente pela adesão espontânea da platéia em formar um coro e cantar com os atores. A pesquisa definiu 89 canções, que são executadas (integralmente ou apenas em partes) por um quinteto musical. "Pena que não tivemos um orçamento mais afortunado para montar uma big band, mas o grupo consegue cumprir com maestria a função", afirma Possi, que participou de uma ampla pesquisa de inúmeros ritmos brasileiros e afro-brasileiros, selecionando samba, bossa nova, tropicalismo, marchinhas populares, Jovem Guarda e MPB. Na verdade, a produção brasileira de O Baile pode ser considerada uma vitória pessoal da atriz e produtora Tássia Camargo. Apaixonada pela história desde que assistiu ao filme, nos anos 1980, ela tinha uma idéia fixa de criar uma versão nacional. Até então, Tássia (assim como a maioria das pessoas) não sabia que Ettore Scola se inspirara em uma peça. Só descobriu há cinco anos, quando viajou para a França e conheceu o trabalho do Théâtre duCampagnol, grupo responsável pela montagem original. Ainda obcecada, Tássia iniciou o árduo trabalho de levantamento de recursos até finalmente conseguir estrear em junho, no Rio. Como ocupou uma sala do Sesc, a peça teve curta temporada, seguindo os preceitos da entidade. "Foi o início de uma correria em busca de teatro, pois ainda havia muitas contas para serem pagas", conta Possi.  Foi quando Tássia que, além de produzir, também atua ao lado de outros 19 artistas, descobriu uma inesperada brecha na agenda do Teatro Cultura Artística, aberta com o cancelamento antecipado da peça O Avarento, provocado pelo estado de saúde do ator Paulo Autran. "Lógico que não esperávamos que fosse dessa forma, mas o espaço surgiu no momento certo", conta Possi que, ao observar a evolução política e social do Brasil, tirou uma triste conclusão. "Percebi que nossa sociedade ficou mais cafona e esculachada, especialmente na preservação de valores essenciais."   A festejada versão do cinema  Ao contrário da encenação brasileira, a versão dirigida por Ettore Scola para o cinema cobre 50 anos da história européia, especialmente a francesa, a partir de 1930. O filme começa em 1983, quando, em um grande salão de baile construído nos anos 30, os dançarinos começam a chegar. As mulheres são as primeiras, uma após outra, exibindo tipos clássicos do comportamento humano como a típica quarentona com seu coque e seu tailleur preto bem cintado, e a loura de corpo bem delineado, exibindo-se como se tivesse sempre 20 anos. Em seguida, chegam os homens que logo se dirigem ao bar. Novamente, uma galeria de tipos como o sujeito cheio de tiques (é um compulsivo mastigador de bombons), o homem mais velho mas que não esconde sua disposição, o rapaz tímido de ar amedrontado. Analisar a sociedade sempre foi um trunfo da cinematografia de Scola que, com O Baile, apresenta burgueses ricos, trabalhadores decepcionados, sacerdotisas da dança e cavalheiros virtuosos. Com eles, o diretor relata metaforicamente a história da Europa em um período conturbado. O filme estreou em dezembro de 1983 na França e logo recebeu diversos prêmios, como o Urso de Prata no Festival de Berlim e o Cesar de melhor diretor. Apesar de idolatrado, o longa ainda não foi lançado em DVD no Brasil.  O Baile. 120 min. 16 anos. Teatro Cultura Artística - Sala Esther Mesquita (1.156 lug.). Rua Nestor Pestana, 196, Consolação, telefone 3258-3616. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. De R$ 40 a R$ 80. Até 25/11

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