Estréia no Sesc Paulista o espetáculo Cleide Eló e as Pêras

Numa sala situada no oitavo andar de um prédio da Avenida Paulista o janelão de vidro oferece, de graça, a noite de mil luzes da metrópole paulistana como cenografia para o espetáculo Cleide Eló e as Pêras, que estréia nesta quinta-feira no Sesc da Paulista. Postado entre esse cenário grandioso e o espectador está Ernesto, personagem criado e interpretado por Gero Camilo, também autor do texto.Se causa impacto o contraste entre a arquitetura de escala gigantesca e a miudeza do homem/ator que conta sua história, o mesmo contraponto se repete poeticamente na cena: Ernesto, um humilde e anônimo vigia de uma fabriqueta do interior, vive uma paixão libertária, arrebatadora e profundamente transformadora por uma mulher chamada Cleide. Paula Cohen entra em cena pouco depois para contar de sua paixão - cruel, sofrida, arrasadora - por um homem chamado Eló. Ela e Gero se unem na cena final e o leitor finalmente acaba por entender o título do espetáculo, tão estranho ao primeiro olhar.Cleide Eló e as Pêras tem direção de Gustavo Machado e textos de Gero Camilo, mais uma vez retirados do livro A Macaúba da Terra, como nos espetáculos como Aldeotas e As Bastianas. Quem viu e se encantou com Aldeotas pode esperar semelhanças. "Há sim uma aproximação pela poesia e, mais que tudo, pela essencialidade", diz Gero. A nudez do palco, o ator no centro da narrativa. "Mas são outras as paisagens."Amizade e memórias de infância eram matéria-prima do trabalho anterior. Desta vez, o ator explora a fúria da paixão. São dois solos. No primeiro, Ernesto faz uma narração poética de sua relação com Cleide, num tempo passado, numa muito pequena cidade do interior. "Nesse caso, a cenografia sugere que ele já andou muito pelo mundo atrás da Cleide." A cidade natal ficou pequena demais para esse homem engrandecido pelo desejo. "A paixão quer sempre novos lugares, vive sob essa condição, sob o desejo insaciável de explorar novos territórios. Isso é bom e mau. Ela bagunça o território, mas obriga a gente a recomeçar."Por outro lado, é difícil lidar com o contraponto entre o eterno movimento da paixão e o desejo humano de estabilização. "A gente não sabe lidar bem com isso. Eu já me vi apaixonado e sem capacidade de dar bola dentro, atropelando totalmente o meu processo de sedução." É mais ou menos isso o que acontece com Isadora, a personagem vivida por Paula, que tenta a todo custo reter Eló, o que acaba em tragédia. "Ernesto conta sua história como se estivesse entre amigos; Isadora parece estar diante de um júri.""Eló é homem livre demais, capaz de transitar entre mendigos e granfinos, de ficar uma semana sem aparecer e, na volta, achar que deve ser recebido por ela naturalmente. Ela vai engolindo, fazendo silêncios." E numa relação afetiva desencontrada silêncios podem ser muito perigosos. "Eu identifico aqui e ali alguma atitude minha em todos esses personagens." Cleide Eló e as Pêras. 80 min. 12 anos. Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista - Espaço Oitavo Andar (50 lug.). Av. Paulista, 119, 3179-3700. 5.ªa dom., 21 h. R$ 15. Até 20/8

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