Estréia <i>O Continente Negro</i>, com Débora Falabella

Com elenco global, a peça traz um olhar renovado e inventivo sobre as relações de amorNum primeiro momento pode soar desconhecido para os paulistanos o nome do mineiro Grupo 3 de Teatro. Impressão que já se desfaz quando se sabe que é formado por Débora Falabella e Yara de Novaes, a primeira atriz, a segunda diretora de uma ótima montagem de A Serpente, de Nelson Rodrigues, que fez temporada no Teatro Faap, ano passado. Pois o grupo escolheu São Paulo, e o mesmo teatro, para a estréia de seu novo espetáculo, O Continente Negro, que tem ainda no elenco o ator Ângelo Antônio, o ?pai? no filme Os Dois Filhos de Francisco. Na direção, especialmente convidado, o carioca Aderbal Freire-Filho, cujo mais recente espetáculo, O Púcaro Búlgaro, ganhou no Rio o Prêmio Eletrobrás de melhor espetáculo e melhor direção e, coincidentemente, estréia na próxima semana no Sesc Anchieta.Na equipe técnica, o cenógrafo e figurinista André Cortez e o diretor musical Morris Picciotto, com contribuição fundamental para a qualidade dos espetáculos do grupo. Nova dramaturgiaO autor do texto, o chileno Marco Antonio de La Parra, romancista, contista e dramaturgo premiado, é também psiquiatra e talvez isso explique a agudez de seu olhar para as relações humanas, especialmente as amorosas, envolvendo desejo, traição, culpa, raiva, dor, que são o tema central dessa peça.?No Brasil ele não é tão conhecido, mas é muito prestigiado no Chile, na Argentina, em vários países, e sobretudo na Espanha, onde é considerado um dos melhores representantes da nova dramaturgia latino-americana?, afirma Aderbal Freire-Filho. La Parra, presente na estréia, volta ao Brasil onde esteve em janeiro num projeto da Cia. Kaus que encenou sua peça Infiéis. A julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado, na quarta-feira, ele pode ficar muito feliz com o que vai ver em cena. No palco, o trio de atores dá corpo e voz a 12 personagens, cujas vidas inteiras podemos quase adivinhar - certamente imaginar - a partir de cenas curtas, como o reencontro de uma mulher (Yara) com o ex-marido a quem abandonou, e com ele os dois filhos do casal; uma adolescente (Débora) apaixonada pelo seu professor; um patético marido machista (Ângelo)flagrado com outra mulher que tenta uma reconciliação. Soa já visto??Ele sabe disso e no prefácio da peça declara que os personagens podem ficar próximos demais do melodramático, dependendo da forma como forem tratados?, diz Aderbal. Observa ainda que, no Brasil, associamos imediatamente melodrama e telenovela. ?É a linguagem por excelência da ficção televisiva. Tanto que a televisão teve de viajar até o século 19 para buscar essa dramaturgia que é o seu material dramático por natureza.? Segundo ele, uma das características dessa linguagem na televisão é a superficialidade com que o tema da relação amorosa é tratado, sempre na chave dos clichês. ?Os jornais dizem: fulana agora vai fazer a má. E entrevistam - como você se sente fazendo a vilã?? Nas novelas as pessoas são assim mesmo, boas, más, ingênuas, sedutoras, sempre inteiramente um desses aspectos.Realismo ?A primeira diferença entre esse melodrama e o texto de La Parra está na profundidade. Na peça, uma atitude que seria condenável pelos padrões sociais vigentes, como da mulher que deixa os filhos, em nenhum momento é tratada nesses termos, mulher má, marido bonzinho, o que vemos é uma mulher em crise e não sendo julgada.? Realmente impressiona a construção dessa personagem feita por Yara, uma mulher perturbada, patética, cheia de contradições, mas também potente. Impossível defini-la com apenas uma palavra. A segunda, e importante diferença, para o diretor, está na qualidade literária e na habilidade que ele tem para manejar as palavras. ?Na cena do marido que traiu a mulher, o público de convidados se dobrou de rir com aquele sujeito hipócrita que diz - drogas, não - com dois copos de uísque na mão?, diz Aderbal.No prefácio da peça ainda, o autor pede uma ?teatralidade menor? apostando talvez na sutileza como forma de fugir do clichê. ?É desafiante compreender essa proposta, que eu presumo ter alcançado?, diz. ?O primeiro erro, acho eu, é compreender isso como um teatro pobre. Quero uma cena rica, inventiva, sem limites na utilização dos recursos e das possibilidades do palco.Poética cênica O que ele chama de teatralidade menor, e não é fácil fazer isso, é não ?interpretar sentimentos?. O ator não tem de interpretar a tristeza, diretamente, mas partir para um ?ataque à ação? que leva até esse sentimento.?Então o basta o ator expressar bem a situação, o comportamento do personagem e deixar para o público o sentimento? ?Não é simples assim. No cinema, o ator vive, a câmera mostra. No teatro, ele tem também de mostrar, o que chamo de noção de exposição. Se o ator finge que o público não está ali, aí voltamos à quarta parede e ao naturalismo do século passado.?Na análise de Aderbal, o realismo está de volta com força aos palcos do mundo. ?Mas como Picasso quando volta ao figurativo, não há retrocesso nisso, mas avanço. Porque essa retomada traz junto toda a poética cênica descoberta com a explosão do palco, ou da tela. Um realismo inventivo, potencializado, sem limites na criação de signos para se expressar.?Quer saber mais? Pode-se ler textos e pequenas entrevistas com toda a equipe de criação no site da peça e até mesmo ?conversar? com os atores, uma vez que há um espaço ali para fazer perguntas. Gostou da peça? Escreva para eles.O Continente Negro. 60 min. 12 anos. Teatro Faap (400 lug.). R. Alagoas, 903, 3662-7233. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40 (6.ª) e R$ 50. Até 1/7

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