Estreia hoje programa 'Papo de Polícia' no Multishow

De 2003 até hoje, o policial civil Beto Chaves, 34 anos, entrou no Complexo do Alemão, no Rio, fardado - e armado - inúmeras vezes. Ele, inclusive, participou de todas as ações que culminaram na ocupação pelas forças de segurança pública de todo o complexo, no fim do ano passado. Nessas ocasiões, Beto lembra do temor que notava no rosto dos moradores da comunidade. Eles sequer tinham coragem de olhar nos seus olhos. "Eles tinham medo de se envolver", conta o policial.

AE, Agência Estado

07 de fevereiro de 2011 | 10h11

No dia 13 de dezembro do ano passado, uma segunda-feira, a farda foi trocada por camiseta, bermuda e chinelo. Com o cabelo longo, na altura dos ombros, solto, e a barba comprida, Beto voltou ao Alemão. Dessa vez, trocou as armas pela câmera de TV. Ali, ele não seria o policial Chaves. Seria apenas "Beto", como era conhecido quando cresceu naquela mesma região. Foram sete dias vivendo lá, conversando com as pessoas e gravando o cotidiano dos moradores. As 18 horas de imagens gravadas se tornaram sete episódios de 15 minutos de duração cada, do programa "Papo de Polícia", que estreia hoje no canal de TV por assinatura Multishow, sempre às 21h15, todos os dias.

A ideia do programa surgiu numa conversa entre o diretor, Rafael Dragaud e José Junior, coordenador executivo do Grupo Cultural Afro Reggae. Juntos, eles atuam no programa "Conexões Urbanas", também do Multishow - Dragaud é o diretor e Junior, o apresentador. Tudo surgiu de um fato assustador. Durante a invasão das forças policiais ao Alemão, Dragaud conta que o AfroReggae recebeu e-mails nos quais as pessoas diziam que a polícia deveria matar todos os moradores. "Era uma visão retrógrada, imediatista, absurda, violenta. Ficamos todos chocados", diz o diretor. E qual o motivo para a escolha de um policial civil? "Se partimos da ideia de que nem todo morador de comunidade é ladrão, precisamos mostrar que nem todo policial é bandido". A escolha por Beto Chaves foi quase natural. "Ele faz parte do Afro Reggae", conta Dragaud.

O momento que mais chamou a atenção para o reality show, mesmo nas chamadas dos intervalos comerciais do canal, é aquele em que Beto revela aos entrevistados que é policial. Apesar de estar no roteiro que essa situação deveria acontecer, até ele ficou sem ação em alguns momentos. Uma delas foi quando conheceu dona Ediléia, a mãe de um traficante que foi morto pela polícia durante a invasão do dia 28 de dezembro. "Estava diante de uma mãe que chorava a morte do filho. Ela tinha seis filhos, separada, casada com outro homem. Foi uma das conversas mais dolorosas", conta Beto. Tanto que o policial não revelou sua identidade. "Apenas dei meu abraço sincero". Para Dragaud, esse tipo de situação tem força para derrubar qualquer roteiro.

Em outras situações, o diálogo com os moradores foi tão tranquilo que, no momento da revelação da identidade como policial civil, a surpresa foi de Beto. "Essas pessoas passavam por mim e me chamavam. No domingo, um dia antes de ir embora do Complexo do Alemão, todos foram num churrasco que organizei", conta o policial. Apesar de o policial negar o conceito de reality show no qual foi inserido o "Papo de Polícia", a realidade dessas pessoas que tentam uma nova vida está exposta na tela. Assim como a imersão feita no Alemão pelo policial. Ou melhor: por Beto. As informações são do Jornal da Tarde.

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