ESTREIA EM ALTA VOLTAGEM

Dois momentos desencontrados propiciaram sorrisos mal disfarçados na excelente plateia presente na manhã do último domingo, no Teatro Municipal de São Paulo, no concerto de abertura da temporada 2013 da Orquestra Experimental de Repertório. Primeiro, o imbróglio entre dois inspetores encarregados de deixar o Steinway nos trinques para José Feghali pilotá-lo no concerto nº 23 de Mozart, que se atrapalharam com o suporte da partitura. O segundo momento inesperado aconteceu no extra de Feghali: ele escolheu o prelúdio em dó maior do Cravo Bem Temperado, mas de repente Bach teve um outro parceiro: numa das galerias, um bebê gritou, chorou e tossiu durante toda a execução.

O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h12

Já se percebeu o novo clima do Teatro Municipal antes do início do concerto. O diretor artístico John Neschling observava tudo com atenção, a partir de seu posto de observação no café. É ótimo, e necessário, que se tenha um maestro-diretor artístico presente, magnetizando cada concerto nos bastidores, junto à plateia e sobretudo no palco. Vazios de poder, sabemos, costumam provocar desastres mesmo em estruturas já bem azeitadas. O próprio maestro Jamil Maluf, em seu discurso de boas-vindas ao público para a temporada 2013, ressaltou que "o teatro vive um momento histórico" com a chegada de Neschling.

Vamos à música. A primeira parte, mozartiana, mostrou que a OER é capaz de tocar com transparência, leveza e agilidade. O que já se desenhava na abertura de O Rapto no Serralho virou um triunfo para o grupo no concerto 23. Refinadamente liderado por Maluf, jamais encobriu o solista, tirou o máximo proveito de cada frase, fosse das cordas ou dos sopros, em sintonia perfeita com Feghali em estado de graça. Preciso e leve como Mozart requer, injetou a dose exata de sutileza no toque, sobretudo no comovente Adagio.

Já a sexta sinfonia de Bruckner, que ocupou toda a segunda parte, é um enorme desafio para uma orquestra que mescla estudantes bolsistas com monitores experimentados. Aqui e ali ouviram-se imperfeições - mais nos sopros do que nas cordas, mas também nestas -, inevitáveis. É necessário, porém, pensar a respeito desta performance de outro modo, o de como este grupo jovem conseguiu realizar uma interpretação coerente, orgânica. Méritos, claro, de Maluf, que possui uma clareza incrível no modo de conduzir seus comandados, dar-lhes as entradas, moldar frases e dinâmicas. Nesse sentido, os metais, muito exigidos, estiveram bem, assim como as cordas. O mais importante, no entanto, é que se assistiu a uma leitura digna de uma das mais difíceis e complexas obras sinfônicas da história da música. A temporada começa em alta voltagem e promete crescer muito até o final do ano, com direito a uma ópera de Stravinski e um concerto com obras de Flo Menezes e Willy Corrêa de Oliveira.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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