Estreia deu forma a novo regionalismo

Lançado em 1930, O Quinze apresenta matrizes que iriam se tornar recorrentes, como a ênfase nas relações sociais

Walnice Nogueira Galvão, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Romance de estreia de Rachel de Queiroz, O Quinze (1930) dedica-se à crônica da famigerada seca de 1915, que ela presenciou na primeira infância e cuja saga acompanhou nos relatos subsequentes que iria ouvindo. Fenômeno tanto social como climático, gerava miséria e deslocamento de populações. Levas de retirantes, no limite das forças e recursos, punham o pé na estrada e, como refugiados de guerra, levando consigo os poucos trastes que conseguiam carregar, invadiam aos magotes as fazendas e cidades, pedindo esmola.

Narrativa linear em linguagem chã, buscando aproximar-se do coloquial, o livro destacou-se pelo efeito de simplicidade. Com boa acolhida, alçou a autora ao patamar do reconhecimento e assegurou-lhe um lugar entre os pioneiros do "romance de 30", que vinha para ficar. Precedido por A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1928), integraria uma esplêndida plêiade, composta por obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Amando Fontes, Herberto Sales, Jorge Amado, acompanhadas pelas de Érico Veríssimo e Dyonélio Machado ao Sul - para só mencionar os principais nomes. A nova estética dominaria as décadas de 30 e 40, produzindo um sem-número de epígonos. Sua influência se faz sentir até hoje.

Atendendo às dimensões continentais do País, que a literatura da Corte não alcançava, o Regionalismo nascera ainda no século. 19. Foram ganhando registro em nossas letras as paisagens de diferentes quadrantes e os homens que neles vivem: o caipira, o bandido, o jagunço, o seringueiro, o caboclo, o cangaceiro, o vaqueiro, o beato, o retirante, o capanga, o garimpeiro, o gaúcho, o tropeiro. Junto com eles obtiveram carta de foro as peculiaridades idiomáticas, ampliando o léxico e a sintaxe da língua portuguesa. Dessa tarefa se encarregaram com escrúpulo várias gerações de escritores, executando tanto o mapeamento da paisagem e das condições sociais, quanto o inventário dos tipos humanos que se espalhavam pela ignota vastidão do país.

Já o novo Regionalismo, ao qual pertenceu Rachel de Queiroz, teria seu apogeu na década de 1930, período de intensa polarização política, na esteira da Grande Depressão desencadeada pela crise de 1929. No lapso entre-guerras, intelectuais e artistas se viram solicitados por uma série de comoções sociais sem precedentes. No mundo todo, tanto quanto no Brasil, tratariam de arregimentar-se ou à direita ou à esquerda. E, de preferência, à esquerda, como foi o caso de nossa escritora e seus confrades.

Os romances de denúncia social que então eclodiram por toda parte constituíram uma espécie de neonaturalismo em seu afã de denunciar a injustiça, a iniquidade e o preconceito sob todas as suas formas. Hoje em dia mal dá para imaginar a repercussão que obtiveram e a escala em que foram lidos, sobretudo os dos Estados Unidos e da América Espanhola, pois se tornariam best-sellers pelo mundo afora. No Brasil que começava a deixar de ser rural, a nova ficção teria sobretons compensatórios, respondendo a três tendências de vulto: a urbanização deslanchada por volta dessa época - até então, 70 % da população vivia no campo -, o ímpeto migratório Norte-Sudeste e a grande centralização da era Vargas, desafiando o coronelismo e as oligarquias. Esse é o caldo de cultura em que se nutrem os livros que vão surgindo.

Em O Quinze já são de notar certas matrizes que se farão recorrentes no romance de 30, desde o entrecho que expõe um drama humano local, até à presença de coronéis, de cangaceiros, de retirantes, da seca, da paisagem de caatinga e da ênfase nas relações sociais. Fruto dos avanços vanguardistas do Modernismo de 1922 porém menos experimental, a nova ficção mostra coletivamente a cicatriz de origem na busca de uma prosa mais desataviada, desprezando o adorno retórico.

Desde o início, a escrita de Rachel de Queiroz aponta para um traço que seria constante em sua obra: a concentração em personagens femininas, lembrando outras cearenses de outros livros, autônomas, cheias de iniciativa e inteligência. Entre elas, Dona Guidinha do Poço e sua tirada imortal, calando as picuinhas do marido, avesso a sua generosidade para com os flagelados da seca arranchando na fazenda que pertence a ela: "Eu dou do que é meu". Ou então, no outro extremo da escala, Luzia Homem, uma retirante dentre os tantos recrutados para obras públicas, que carrega pedras na cabeça em sua labuta. Sem esquecer as heroínas de José de Alencar (com quem nossa autora afirmava parentesco), neto de D. Bárbara de Alencar, matrona de desempenho proeminente na Revolução de 1817 e uma das primeiras presas políticas brasileiras.

Posteriormente, sem abandonar o filão feminino, Rachel de Queiroz seguiria outros rumos, divergentes, tanto políticos quanto literários. Após os quatro primeiros romances, suas incursões pela dramaturgia e sua popularidade como cronista atravessariam décadas, com eventuais recaídas na prosa de ficção. Ficou como marco histórico seu pioneirismo no romance de 30, que ela contribuiu para conformar, ajudando a definir o que seria esse movimento em nossas letras.

WALNICE NOGUEIRA GALVÃO, PROFESSORA DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA NA USP, É AUTORA DE EUCLIDIANA: ENSAIOS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA (COMPANHIA DAS LETRAS), ENTRE OUTROS TÍTULOS

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