Lillah Halla/Divulgação
Lillah Halla/Divulgação

Estreia de um veterano no Festival de Curitiba

Parceiro de Felipe Hirsch na Sutil Cia., Murilo Hauser debuta como encenador na mostra

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2012 | 03h08

Murilo Hauser é um diretor estreante. Com o espetáculo Ah, a Humanidade! e Outras Exclamações, que integra a mostra oficial do Festival de Curitiba, ele debuta como encenador. "Mas, de certa maneira não é muito diferente do que eu já fazia", comenta. "Então, não tem esse nervosismo de estreia. Nem parece que é a primeira vez." Também pudera. Nos últimos oito anos, Hauser ajudou a levantar uma série de peças. A maioria delas, em parceria com Felipe Hirsch, como codiretor da Sutil Companhia de Teatro. E, recentemente, ao lado de Hector Babenco na encenação de Hell.

Para esta incursão solo pela direção, o artista se coloca à frente de um novo grupo, a companhia curitibana Pausa, mas adentra em um universo pelo qual já caminha com desenvoltura: a literatura do norte-americano Will Eno.

Com Hirsch, Hauser participou das montagens de outros textos do dramaturgo, como Thom Pain- Lady Gray e Temporada de Gripe. "Esse texto que estou montando lida com vários aspectos que são comuns à obra dele", considera o jovem diretor. "Estão ali uma maneira muito particular de manejar a linguagem e também a forma como mostra as pessoas em situação de fragilidade."

No caso de Ah, a Humanidade! essa noção de fragilidade é levada ao extremo. A peça é uma junção de cinco cenas curtas. Eno as escreveu separadamente, em momentos diferentes. E, em cada uma delas, elenca personagens e situações únicas. Existe, porém, um nítido fio que as une: acompanhamos invariavelmente a situações de desconforto, homens e mulheres que, sem querer, mostram-se mais vulneráveis do que gostariam. O título do espetáculo faz menção a um episódio histórico dos Estados Unidos. Em 1937, ao assistir a um incêndio de um enorme zepelim, o locutor de um programa de rádio se descontrola. Estava ao vivo, mas não pôde conter-se. Exclamou "Ah, a Humanidade!" e abandonou a transmissão.

No espetáculo, a cena inicial traz um treinador de futebol que, durante uma coletiva de imprensa, tenta justificar o fracasso de seu time, mas põe-se a falar da mulher que amou. A seguir, surge a funcionária de uma companhia aérea que precisa explicar a queda de um avião para um grupo de parentes das vítimas. Também acompanhamos um homem e uma mulher que gravam vídeos na tentativa de encontrar, finalmente, os companheiros que procuram. A intenção é que mostrem, cada um, o seu melhor. Mas são suas falhas e medos que acabam por vir à tona.

Todas essas histórias estão ambientadas em um mundo em ruínas. No cenário de Valdo Lopes RJ, os atores precisam achar espaço para se locomover entre ferros retorcidos, um poste prestes a desabar, escombros, móveis quebrados.

Além da familiaridade com a dramaturgia de Will Eno, Hauser também conta, no novo projeto, com a presença de alguns integrantes da Sutil Companhia de Teatro: a atriz Erica Mogan e o iluminador Beto Bruel. Hoje, muito presente no Rio e em São Paulo, a Sutil nasceu em Curitiba, cidade em que Hauser ainda vive. A aproximação com o grupo deu-se quando ainda era adolescente. Fã, passou a frequentar o camarim depois dos espetáculos e, gradativamente, tornou-se parte da companhia. Antes diretor assistente, passou a codirigir as criações com Felipe Hirsch. "Foi um processo tão natural. Agora, parece só mais uma etapa", acredita.

Peças de teor erótico

Uma das novidades desta edição do Festival de Curitiba é a mostraXXX. Dedicada ao público adulto, ela reúne três montagens de teor erótico. O trabalho do grupo paulistano Os Satyros abriu a programação. Em Satyros' Satiricom, a base está no clássico de Petrônio, escrito em 60 d.C., que mereceu adaptação do dramaturgo Evaldo Mocarzel. Após o espetáculo, o público paricipa de uma festa em que os atores assumem o papel de escravos do século 21. A montagem, dirigida por Rodolfo García Vázquez, chega a São Paulo ainda neste mês. Hoje e amanhã será a vez do diretor Gilberto Gawronski mostrar Ato de Comunhão, com texto de Lautaro Vilo. Na peça, da qual participa também como ator, Gawronski tematiza as relações contemporâneas, mostrando encontros via internet e um episódio verídico de canibalismo, ocorrido na Alemanha, em 2001. A obra máxima de Petrônio merece leitura de um outro coletivo. O grupo curitibano Delírio Cia. de Teatro também mostra a sua versão para o texto e leva ao palco os excessos e as orgias da Roma antiga, fazendo uma comparação com a atualidade. / M.E.M.

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