J.F. Diório/AE
J.F. Diório/AE

Estreia de 'Hair' traz a era de Aquário para São Paulo

Clássico musical revê a consciência política que ganhava força no fim dos anos 1960

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2012 | 21h20

A era de Aquário começa na sexta-feira 13 no Teatro Frei Caneca - é neste dia que um bando de cabeludos bem-intencionados vai tomar o palco e marcar o início da temporada paulistana do musical Hair, depois de sucesso no Rio. “Esperamos durante seis meses até estrear aqui o que, se não foi favorável para a produção, ao menos serviu para que o elenco voltasse vitalizado”, acredita Charles Möeller, responsável pela direção e produção geral, ao lado de Claudio Botelho. “Percebemos que agora há uma força renovada tanto no vocal como na dança.”

O período de descanso fez também com que alguns atores se aventurassem por outras produções. A começar por um dos protagonistas, Igor Rickli, que deixou o papel do hippie John Berger para integrar outro sucesso da dupla Möeller/Botelho, Judy - O Fim do Arco-Íris, ainda em cartaz no Rio. Ao todo, o elenco de 30 atores de Hair chega a São Paulo com 16 caras novas. Entre elas, a do sucessor de Rickli, o talentoso Fernando Rocha - ele já chamara atenção quando participou, em 2003, então com 22 anos, dos testes para a montagem paulistana de Chicago.

Outra novidade é a inclusão de Kiara Sasso, uma das melhores intérpretes do musical brasileiro, em um papel que foge de seu tradicional: a da hippie grávida Jeanie. “Ela passou por uma verdadeira desconstrução para assumir esse personagem”, conta Botelho.

Criado por Gerome Ragni, James Rado e Galt MacDermot, Hair é ambientado em 1968 e acompanha os passos de John Berger (Rocha), hippie que comanda uma tribo de moças e rapazes de Nova York. O grupo logo é reforçado por Claude (Hugo Bonemer), rapaz que vive um dilema: oprimido pelos pais, que o querem alistado no Exército para a Guerra do Vietnã, ele também é assediado pelos hippies, que o incentivam a se soltar das amarras sociais. Depois de estrear em 1967 no circuito alternativo dos Estados Unidos, e, em seguida, conquistar a Broadway, o espetáculo logo foi alçado à condição de clássico por tratar de guerra e sexualidade sob um olhar inovador e original. 

“É um assunto ainda muito atual, mesmo que a filosofia hippie não continue”, comenta Fernando Rocha. “E, não bastasse isso, há ainda a força mântrica das canções”, completa Marcel Octavio, que interpreta Woof, o hippie cuja sexualidade é ambivalente.

São muitas as referências da peça, especialmente paralelos com Shakespeare e cristianismo. “É uma espécie de Novo Testamento, pois a peça começa com o Anjo da Anunciação cantando Aquarius, que prega uma nova era e a vinda do novo Cristo. Em seguida, entra em cena John Berger, que tem as mesmas iniciais de João Batista e que fundamenta uma liturgia inédita - por meio do LSD, ele alcança uma nova fronteira, uma referência ao que Paul McCartney disse nos anos 1960, sobre encontrar Deus por meio da droga”, comenta Charles Möeller que, ao assistir à uma nova versão da peça em 2009, em Nova York, ao lado de Botelho, ficou encantado e decidido a trazê-la ao Brasil. A produção acabou viabilizada pela Aventura Entretenimento, empresa que vem patrocinando os recentes espetáculos dos dois.

E, na montagem da dupla, Hair sacramenta sua condição de um espetáculo vital, necessário - se mantém o frescor de uma consciência política que ganhava força naquele final dos anos 1960, pregando que é melhor ser um civil vivo que um soldado morto, também exalta o cuidado com a ecologia e a liberdade de opção sexual como atos ideais para a construção de uma sociedade civilizada e pacífica. E isso por meio de canções que se tornaram célebres justamente por sua mensagem - pela primeira vez, um musical unia rock’n’roll com a música negra (ainda pouco conhecida fora dos guetos), mantras orientais, letras psicodélicas e influências de música tribal. “Tive grande trabalho na tradução das letras”, conta Botelho. “Logo percebi que a sonoridade era mais importante que a tradução mais fiel.”

Dividido em dois atos, Hair exibe momentos distintos. No primeiro, é exaltada a arrogância da juventude, o sol brilha, enquanto no segundo, com a chegada do inverno, aqueles mesmos hippies querem voltar para a casa dos pais, como bichos assustados. “É o inverno da alma. Tudo caminha para a morte”, comenta Möeller. “E os autores foram implacáveis, pois Claude não escapa da guerra nem da morte.”

Como todo o elenco se mantém praticamente a peça inteira em cena, foi necessário um rigoroso trabalho de marcação. “Andamos em grupo, mas cada um tem de saber exatamente onde é seu lugar”, conta Hugo Bonemer. “E é preciso que tudo pareça natural, o que exige mais ensaios”, completa Carol Puntel, que vive Sheila.

Da coreografia repleta de gestos atléticos cuidadosamente criada por Alonso de Barros até a manutenção de transgressões originais (como a cena de nudez coletiva ou a que mostra as ‘viagens’ promovidas pelo consumo de drogas ), a nova montagem de Hair se impõe como uma das melhores já feitas no Brasil. Basta medir a comoção que se estende pela plateia, especialmente no final, quando todos são convidados a confraternizar no palco. “Tudo se transforma em uma imensa liturgia, com as pessoas se esquecendo de seus problemas”, completa Möeller.

Cinema x teatro

Cena da mesa
Não espere ver a famosa cena em que Berger canta e dança sobre uma mesa: não existe no musical original e foi criada especialmente para o longa dirigido por Milos Forman, em 1979.

Final 
O filme também termina com a morte de Berger, enquanto na peça é Claude quem se vai

Social
No cinema, Sheila é uma patricinha, ao contrário do musical, no qual não há uma diferença social tão grande
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