Estréia "Bang Bang", novela de Mario Prata

Tem artes marciais, desenho animado, personagens com nomes esquisitos, gente cult como Jece Valadão e Sidney Magal no elenco, Pai Mei e até uma chacina no começo da história. O autor, o diretor e o elenco de Bang Bang, entretanto, juram que a novela não se inspira em Kill Bill 1 e 2, do diretor Quentin Tarantino. Mas não negam que é uma mistura de influências, incluindo os faroestes do italiano Sérgio Leone, pitadas de um humor surreal e sátira política na linha Que Rei Sou Eu (1989) - a novela deve falar sobre o mensalão, taxa do lixo e medida provisória. "Minha novela não tem nada de Kill Bill. A sinopse, com a chacina, estava pronta antes do filme. A comparação com Cassiano Gabus Mendes, entretanto, é uma honra", diz o autor, Mário Prata, que volta a assinar um folhetim depois de 20 anos - o último foi Estúpido Cupido. Encorajado pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, que convenceu o diretor artístico da emissora, Mário Lúcio Vaz, a aprovar a idéia, Mario Prata investiu no projeto. "Eu tinha medo que ficasse muito limpinho, muito Globo, esse chão, que a gente está vendo sujo, eu tinha medo que fosse encerado, com uns tapetes persas no meio", brinca. O fato de Fernanda Lima, a protagonista Diana, lutar artes marciais, segundo o autor, tem mais relação com a Campanha de Desarmamento do que com o filme de Tarantino. "Eu já tinha escrito seis capítulos quando estourou essa história. Nos intervalos serão intercalados comerciais da campanha do governo. Horário das 7, hora da janta, não vai ter sangue. Por isso os personagens lutam", explica. "Eu passei a infância assistindo a filmes de bangue bangue, usei minha memória afetiva para escrever a novela", diz. Bang Bang se passa em Albuquerque, uma fictícia cidade do velho oeste, no ano de 1881. A história começa com assassinato. Durante uma festa, Joe Wayne (Jece Valadão), a pedido de Paul Bullock (Mauro Mendonça), comanda uma chacina na casa dos Mc Gold. O menino Ben Silver (Bruno Garcia), escondido atrás de um carro de boi, observa tudo. Vinte anos depois volta para se vingar de Bullock, mas se apaixona pela sua filha, Diana (Fernanda Lima). Em Kill Bill, a noiva, interpretada por Uma Thurman, é quem parte em busca de vingança depois que seu chefe - e namorado -, Bill (David Carradine), manda seu grupo de extermínio matar todo mundo em sua festa de casamento. Assim como Jece Valadão é um ídolo cult do cinema brasileiro e Magal um símbolo do trash anos 80, Carradine é o antigo apresentador do programa de TV Kung Fue adorado nos Estados Unidos pelo mesmo tipo de público. O diretor Ricardo Waddington não nega que misturou Sérgio Leone, Tarantino e Clint Eastwood na salada que virou Bang Bang. "Tem muito a ver com Tarantino, claro. A gente deu uma espiada em uma galeria grande de diretores que fizeram western, mas o compromisso é com a obra do Mario", afirma. A animação, um dos recursos que também aproxima a novela do filme, foi declaradamente inspirada no diretor de Kill Bill. "É uma maneira de amenizar a violência", explica, repetindo as palavras de Prata. Fernanda Lima, a protagonista Diana, também teve seu Pai Mei, o mestre chinês de artes marciais que ensina à personagem de Uma Thurman o golpe mortal que define seu destino. No caso da novela, Pai Mei é Sheng Leng Júnior (Anderson Lau), amigo de Diana e ex-capanga dos Bullock. A aptidão da bela com as artes marciais vem da convivência com Sheng. "Eu vi Kill Bill e adoro, acho que a parte de luta que existe no filme é bem parecida. A personagem tem alguma coisa da noiva, mas ela é mais vingativa, a Diana é mais pura", diz Fernanda, que está empenhada nas aulas de artes marciais. "Eu estou aprendendo. Já fiz ginástica olímpica, tenho flexibilidade. Este lado oriental, com kung fu, que o capanga do pai ensinou para ela, eu ainda estou treinando. Acredito que com o tempo vou conseguir coreografar, mais do que lutar, para todo mundo acreditar que sou uma boa lutadora!", vibra. "Fazer parecer é mais importante do que ser faixa preta de karatê ou uma ´pró´ de kung fu." Ainda meio sem crer que sua estréia nas novelas foi logo de cara como protagonista, Fernanda avalia a oportunidade com cautela. "Fui convidada para fazer o teste. Sabia que havia um interesse, mas não tanto! Eu achava muito improvável isso acontecer. Não sou atriz, já tive experiências, mas não a esse ponto. Achava que não estava preparada, acho que ainda não estou, mas é um embate diário." Lucy Liu - Direto do bordel de Albuquerque vem a gueixa Yoko Bell. A dona do papel é nossa Lucy Liu, Daniele Suzuki. Na obra de Tarantino, Lucy é Oren Ishi, contratada de Bill para ser matadora do grupo de extermínio de víboras assassinas e inimiga de Beatrix, a noiva. É com ela um dos embates mais emocionantes do filme. Como Oren, Yoko Bell também é funcionária do vilão, Bullock, que a paga para conquistar seu filho, Neon (Guilherme Berenguer). A atriz não concorda com a comparação entre ela e a clone americana. "Já falaram que sou parecida com a Sabrina do Pânico, deve ser porque é japonesa e fica tudo igual. Meu cabelo foi um pouco inspirado no Kill Bill, mas não está idêntico", comenta a atriz. A história de Oren Ishi, no filme, na verdade se aproxima mais da do Ben Silver da novela. Ela se transforma em uma criminosa depois que um chefe da máfia japonesa mata toda sua família e ela assiste a tudo escondida embaixo da cama. Para mostrar essa cena, Tarantino usou desenho animado. Waddington aproveitou a idéia para evitar o excesso de sangue e ser politicamente correto. O mesmo recurso, segundo o diretor, será utilizado em flash backs durante a novela, exatamente como no filme. Os núcleos - O elemento tragicômico, que faz um filme com cenas sanguinárias às vezes provocar risos na platéia por conta do improvável, também faz parte do roteiro da novela. Tendo chacina como pano de fundo, o universo de Bang Bang é povoado de personagens pitorescos em seus núcleos. Ao todo são dez. As famílias rivais Mc Gold e Bullock formam o eixo central da trama e detonam os conflitos depois da chacina e do duelo que mata John Mc Gold (Tarcísio Meira), o xerife. Sua filha, Penny Lane (Alinne Moraes), vai namorar com o filho dos Bullock, Neon, numa espécie de Romeu e Julieta western. Alinne está se divertindo com a personagem riponga e assume que a trama tem, sim, um quê de Kill Bill. "Tem um pouquinho de tragédia e comédia, como o filme." Batizar um personagem com esse nome, que já foi usado por Kate Hudson no filme Quase Famosos, é um desejo antigo de Mario Prata. "Ouvia a música dos Beatles na adolescência e, como não entendia inglês, imaginava uma menina linda. Cresci com isso na cabeça", diz. Os nomes estranhos também fazem parte de Kill Bill. Para o autor, entretanto, a maioria dos nomes deveria ser de origem inglesa por conta da referência ao velho oeste. Alguns são completamemte sem sentido, como Dong Dong ou Kid Cadilllac, simplesmente porque a sonoridade o agrada. Sessão Exumação - Bang Bang está ressuscitando muita gente e inserindo outras tantas participações curiosas. O cantor Luís Melodia será Sam (sim, uma referência explícita ao filme Casablanca), o pianista do saloon. Sidney Magal será Zorroh aposentado, dono de um salão de cabelereiros e homossexual assumido. "Ele diz que se preocupava com o bem-estar da humanidade e agora se preocupa com a beleza da humanidade", fala. A sumida Angelina Muniz, estrela da emissora na década de 80, será a empregada na casa dos Bullock. Evandro Mesquita será um bandoleiro que para se esconder da polícia se disfarça de mulher, e Henaide, irmã de Denaide, ninguém menos do que Kadu Moliterno. O titã Paulo Miklos é o bandido Kid Cadillac. Giulia Gam, que ganhou fama em Que Rei Sou Eu, é a cafetina Vegas Locomotiv, dona no bordel. A ex-apresentadora do SBT Babi ressurge da geladeira e volta como Marylin Corroy, uma das prostitutas de Vegas. Sátira - A sátira politica é uma das características da trama que a aproxima um pouco de Que Rei Sou Eu. "A sátira é mais social, situando o Brasil. Em nenhum momento vai parecer um bangue bangue americano. Vai ter garotinho tomando conta de cavalo, quando começou o mensalão eu acrescentei, mas achei que ficaria furado porque não sabia quando a cena iria ao ar." Por via das dúvidas, a novela terá uma espécie de caricatura do ex-tesoureiro-geral do PT Delúbio Soares. É o personagem Jeff Wall Street, interpretado por Guilherme Fontes, que ressuscitou depois de Estrela Guia (2001), em que dividiu a cena com a cantora Sandy, e do filme Chatô, o Rei do Brasil , que nunca estreou e até hoje todos perguntam onde foi parar o dinheiro. O ator garante que durante a exibição da novela o filme também entrará em cartaz. O personagem de Guilherme, ironicamente, é o contador do vilão Paul Bullock na trama. No fim das contas, ou na falta delas, Bang Bang é um Kill Bill misturado com pastelão de novela e elementos kitsch de teledramaturgia. Promete ser melhor do que a média. Bruno Garcia, o Ben Silver, analisa a diferença entre o filme e a trama de uma maneira bem prosaica, mas objetiva. "A diferença entre o filme e a novela é que um é dirigido pelo Tarantino e o outro pelo Ricardo Waddington." Ah, sim, é uma grande diferença.

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