ESTREIA AOS 75

Primeiro filme do ator Dustin Hoffman como diretor trata de grupo de cantores aposentados

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2013 | 02h10

Dustin Hoffman é um homem de múltiplos talentos. Além de grande ator (ganhou o Oscar por Kramer vs. Kramer em 1979 e por Rain Man, em 1988), também é compositor (interpreta a canção Shoot the Breeze, de sua autoria, em Tinha Que Ser Você) e produtor. Agora, aos 75 anos, dá mais um passo artístico, tornando-se diretor. E, como estreia, escolheu uma tema que lhe é muito caro - Quarteto, que chega aos cinemas brasileiros no dia 1º de março, acompanha quatro cantores de ópera aposentados que decidem fazer um concerto em homenagem a Verdi, na casa de repouso onde vivem.

"Não se trata de uma escolha qualquer, pois o asilo foi construído por Verdi para abrigar artistas que não podem mais se apresentar", explica Hoffman, em conversa telefônica com o Estado. "Fiquei tocado pela história." Ciente de uma boa máxima do cinema (quanto melhor o ator, menos trabalho ele vai dar), Hoffman montou um elenco veterano mas inspirador - com a grande Maggie Smith, de 78 anos, à frente - que lhe ofereceu momentos reveladores. "Mesmo aos 70 e até aos 80 anos, eles trabalharam até 14 horas por dia, pareciam atletas, super-homens até."

O próprio diretor, aliás, manteve o tom de euforia durante as filmagens, lembrando-se sempre de um valioso conselho trocado entre dois outros cineastas: reza a lenda que Billy Wilder, questionado por Volker Scholöndorff sobre suas intenções ao filmar, respondeu que, quando se conta uma verdade para o público, o melhor é fazê-lo com bom humor, pois, caso contrário, vão querer cortar o seu pescoço. Leia os principais trechos da entrevista que Hoffman concedeu caminhando pelas ruas de Los Angeles (encontraria os filhos em seguida), sem nunca perder o raciocínio, mesmo quando teve de gritar com um cachorro que, pelos latidos, não parecia muito amistoso.

Por que a demora em

estrear como diretor?

Ainda estou tratando disso com meu analista (risos). Falando sério, foi uma decisão que eu vinha acalentando ao longo dos últimos anos e a chance surgiu quando terminei de rodar Tinha Que Ser Você. Durante a filmagem, eu me tornei amigo do diretor de fotografia, John de Borman, com quem trocava ideias sobre a concepção de cada cena. Até que um dia, ele me disse: "Você deveria dirigir um filme". Respondi: "Claro, me arrume alguma boa ideia". No dia seguinte, quando eu me preparava para viajar de avião, ele me ligou dizendo ter recebido um ótimo roteiro (era esse do Quarteto) e que o cineasta inicialmente contatado não poderia dirigir. Bastou ler o roteiro para tomar a decisão.

O fato de você ter uma idade aproximada do elenco principal facilitou seu trabalho?

Sim, e também o fato de eu ser um ator com certa experiência. É por isso que entendo como verdadeira a velha máxima: quanto melhor o ator, menos trabalho você vai enfrentar. Sabe, um momento muito importante de um filme acontece antes de se ligarem as câmeras, ou seja, durante uma conversa com o elenco. Eu não conhecia pessoalmente a Maggie Smith (apenas a tinha visto em uma brilhante montagem de Três Mulheres Altas, de Edward Albee). Assim, em nosso primeiro dia, eu a chamei e disse: "Maggie, estamos todos em nossos 70 anos, assim, se pudermos colocar na tela todos nossos sentimentos nesse momento da carreira, nossos altos e baixos, o receio com a proximidade do fim do túnel, enfim, se formos autênticos, teremos feito um ótimo trabalho".

E como foi a reação dela?

A melhor possível. Não sei se você sabe, mas, há alguns anos, Maggie Smith lutou contra um câncer e, em meio à quimioterapia, ela chegou a dizer que encerraria a carreira, pois não tinha mais forças. "E o seu futuro?", perguntou um repórter. "Parte dele já foi", ela respondeu. Isso me tocou muito e pedi para ela dizer essa frase no filme - o que realmente acontece. Era esse sentimento (um misto de resignação com alguma esperança) que eu queria ver na tela. E Maggie não desistiu de atuar, o que é o melhor de tudo.

Como você ficou sabendo

do asilo criado por Verdi?

Foi por meio do roteirista do filme, Ronald Harwood, autor também da peça de teatro que inspirou Quarteto. Ele me indicou um documentário chamado O Beijo de Tosca (dirigido em 1984 por Daniel Schmid), que acompanha a rotina de cantores de ópera e músicos aposentados que vivem nessa casa, em Milão, construída por Verdi para justamente abrigar, depois de sua morte, os artistas mais pobres do teatro Scala, aqueles que ele sabia não ter onde viver depois de envelhecer.

E há verdadeiros residentes incluídos na história?

Sim, essa foi uma das partes mais excitantes da filmagem, a inclusão de músicos reais. Sabe, eu sempre pensei exatamente como Fellini, que não via a figuração como algo secundário: os figurantes, em seus filmes, sempre tinham uma real participação, ainda que por apenas alguns segundos. Em Quarteto, espero que seja possível identificar a felicidade daquelas pessoas que não eram convidadas a se apresentar há, pelo menos, 20 anos, apesar do talento ainda intacto. Gosto sempre de lembrar do trompetista Ronnie Hughes que, apesar de ainda ostentar beiços potentes, não é lembrado talvez por ter 83 anos. Então, reuni-los em um set de filmagem tornou a ocasião extraordinária para todos nós.

Depois desta experiência,

pensa em novamente dirigir?

Com certeza, foi algo inovador em minha carreira. A sensação de que tudo pode dar errado é mais presente quando se dirige um filme. Atuando, você se preocupa com a realização do seu trabalho. E é apenas isso. Dirigindo, é preciso descobrir o que fazer quando o clima atrapalha um dia de filmagem. Você fica comprometido com aquele projeto o dia inteiro.

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