Estréia a peça <i>Mais Quero Asno</i>, baseada em Gil Vicente

A necessidade de retomar estudosestéticos e técnicos na arte teatral fez com que RenataSoffredini reavivasse o grupo Estep, criado em 1985 por seu pai,Carlos Alberto Soffredini. Mais uma vez, o Programa Municipal deFomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, cujo apoiofinanceiro foi recebido pela companhia em julho do ano passado,teve papel fundamental neste processo. "A linguagem do grupo foipreservada, mas os estudos diários ficaram parados. O meu desejode retomar o trabalho de pesquisa e o aperfeiçoamento detécnicas teatrais só foram possíveis graças ao Fomento", contaRenata. A atriz e diretora escolheu a peça Mais Quero Asno Queme Carregue Que Cavalo Que me Derrube para inaugurar esta novafase com o pé direito. O texto escrito por seu pai em 1969 jáfoi montado diversas vezes e chegou, até mesmo, a render oprêmio Molière à atriz Carmem Silva, nos anos 70. Mais QueroAsno, que estréia nesta sexta-feira no Teatro Brasileiro de Comédia(TBC), é baseada na história d?A Farsa de Inês Pereira,clássico de Gil Vicente. "Foi a única comédia escrita por meupai. É uma paráfrase da obra de Gil Vicente", diz. Soffredini transportou a trama de Inês, a moça casadoiraapaixonada por John Braz, para a periferia de São Paulo. Umexemplo de quão avançada é a análise do autor em relação a seutempo foi submeter a jovem protagonista a um casamento numprograma de televisão. "É um texto quase premonitório. Tratadesta invasão da TV na cultura popular, que observamosdiariamente na mídia." Uma pequena e única modificação no textooriginal foi feita pela filha do dramaturgo. Uma amiga de Inês,?antenada? na última moda, palpiteira da vida alheia, foitransformada em homem, ou quase um. "Uma bichinha pão com ovo",segundo Renata, na gíria gay para "bichinha pobre". "Reforceieste olhar caricato ao personagem. Acredito que meu paiaprovaria a mudança", diz, aos risos. Soffredini, morto em 2001em conseqüência de insuficiência respiratória e diabete, é autorde Hoje É Dia de Maria, microssérie de sucesso dirigida porLuiz Fernando Carvalho. Na montagem, Renata valoriza a trilha sonora,especialmente produzida para o espetáculo por Valmy Rocha,integrante da primeira turma do Estep. Ao lado de Rocha tambémsão remanescentes da estréia da companhia a própria Renata, oator Marcos Barros Espiquer e o mímico Eduardo Coutinho(homônimo do cineasta). "Realizamos uma pesquisa no universopopular para compor as músicas de Mais Quero Asno, que vão dosamba ao brega, passando pelo rock." Alguns dos dez atores queintegram o elenco apresentam canções ao vivo, tocando percussão,cavaquinho e violão. Os figurinos, desenhados por Maria Zuquim, fortalecem ouniverso feminino popular, aquele que ainda acredita empríncipes encantados. "Eles são permeados com essepreto-e-branco colorido", nas palavras da diretora.A companhia Estep (com sua sede estabelecida na Rua MartinhoPrado, 191, cj. 12, tel. 11-3129-8491) vem há um ano trabalhandoem Mais Quero Asno. "Faz um ano que estamos aos ?trancos ebarrancos?. Há apenas quatro meses conseguimos ensaiar para amontagem", conta Renata. Além do Fomento, o Programa de AçãoCultural (PAC) também concedeu recursos para a companhia atravésde seu edital. Cerca de R$ 15 mil foram oferecidos, valor queserviu apenas para pagar os custos com a produção. Outro projeto está sendo desenvolvido pelo Estep graçasao Fomento. Trata-se do espetáculo Trem de Vida, que serádirigido por Eduardo Coutinho. O texto inédito também foiescrito por Soffredini e terá a filha Renata, neste caso, comoatriz. "Será um trabalho totalmente calcado no corpo, por meioda mímica, e no canto. Não tem uma dramaturgia convencional",explica ela. Será dado mais um passo adiante no que o grupochama de Linguagem Estética Soffredini. A estréia da peçaescrita em 1988 será em novembro. A história de Trem de Vida se passa numa estação dosanos 40 e apresenta recortes de vida de personagens que chegam,que vão, que estão ali para tirar o seu sustento. "O espetáculovolta a atenção a esse meio de transporte que já teve muitaimportância e hoje está jogado às traças." Mais Quero Asno Que me Carregue Que Cavalo Que me Derrube. TBC R. Major Diogo, 315, 11-3104-5523. Hoje, 21h30, R$ 10. Sáb.,às 21 h; dom., às 19 h, R$ 30. Até 18/3

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