Estréia a "Medéia" de Antunes Filho

A vingança da Terra contra seus filhos. Essa é uma das principais imagens que o diretor Antunes Filho quer levar ao palco com sua concepção para a tragédia Medéia, de Eurípides. A peça terá apresentações na quinta-feira, sexta e sábado para convidados e estréia para o público no domingo, no Sesc Belenzinho, num espaço cênico especialmente adaptado para o espetáculo. No elenco, Juliana Galdino como Medéia, Kleber Caetano nos papéis de Jasão, Creonte Egeu e Pedagogo e outros 22 jovens atores do Centro de Pesquisa Teatral (CPT/Sesc).Na encenação de Medéia, Antunes faz uma aposta ousada e sempre difícil. Renovar o mito preservando o que ele tem de essencial. "Ao montar uma tragédia grega, é preciso preservar os arquétipos, sem cair no museológico. Não sou culturalista. A cultura pela cultura não tem sentido. Faço teatro para falar do mundo em que vivo." O diretor assina a adaptação do texto, que mantém os personagens, a estrutura narrativa, mas simplifica a linguagem. "A sintaxe tem de ser viva e ágil, porque o espectador está acostumado à linguagem do cinema, entende tudo mais rápido, não precisa de muitas explicações. Por outro lado, há um limite nessa inovação. A partir dele, a tragédia se esfarela."Contrapor banalidade e sacralidade - chamar a atenção para a tragédia que se abate sobre o homem quando perde o sentido do sagrado - é um dos objetivos do diretor. Sendo assim, a atual mudança de espaço cênico - há 20 anos Antunes vem encenando suas peças no Sesc Consolação, onde funciona o CPT - não é mero capricho, mas integra sua estratégia de interferir na atitude do público. Afinal, como atingir um espectador cada vez mais desatento, em busca de um divertimento rápido?Antunes cita Peter Brook para explicar a mudança de palco. "Ele diz que a renovação exige um novo espaço." Brook também costuma dizer que um certo desconforto é importante no teatro. Antunes não chega a tanto. Mas em sua encenação de Medéia quebra com a relação palco italiano/cadeiras confortáveis que teria, por exemplo, no Teatro do Sesc Consolação. Os atores vão mover-se sobre um comprido corredor, com arquibancadas em apenas um dos lados.Buscar um espaço alternativo, para o diretor, significa também uma atitude crítica perante o cenário teatral. "Meu teatro é alternativo. Não faço parte desse teatro de musicais da Broadway. Meu teatro não é globalizado. Estou falando do teatro dos atores globais", brinca. "Também nada tenho a ver com o besteirol e menos ainda com o bobocol." Segundo ele, o bobocol diferencia-se do besteirol pela pretensão. "O bobocol é a interpretação equivocada do pós-moderno, a citação pela citação. Porque o pós-modernismo tem atitude crítica, irônica, levanta problemas, envolve política e sociologia. Já o bobocol é o teatro do bobo da corte, aparentemente agressivo, mas a burguesia adora, faz sua catarse e sente-se democrática por permitir aquilo."Nesse espetáculo, mais que uma estética de impacto, Antunes tenta uma repercussão no espectador. "Montar Medéia é um velho sonho. Mas como alegoria de Gaia, a mãe terra." Segundo o diretor, a mulher que se vinga da injúria já está no texto, não precisa do reforço da encenação. "Odeio obviedades." E pretende evitá-las também na desejada alegoria. "Há guarda-chuva em cena, capas plásticas. Penso nessa história contada sob a chuva, uma chuva constante no palco, signo da vingança da natureza por meio de temporais, tempestades, enchentes. Mas fiz isso como os japoneses. Com apenas alguns signos. Guarda-chuva, capa, um fio de água que escorre constantemente sobre a terra."Para reforçar a alegoria, Antunes coloca no palco os quatro elementos: água, terra, fogo e ar. "Não preciso encher tudo de terra. Basta um pequeno canteiro. E velas. Afinal, Medéia é macumbeira." Na mitologia, Medéia nasceu em Cólquida (ao norte da atual Armênia), região conhecida nas lendas da antiguidade pelos poderes mágicos de seu povo. Ela sabia lidar com ervas e tinha poderes mágicos, que utiliza para ajudar Jasão a conquistar o velocino de ouro (um carneiro alado, com lã de ouro).A história escrita por Eurípides já começa com o abandono de Medéia por Jasão. Mas os gregos, ao contrário de grande parte do público atual, conheciam a história completa e podiam compreender melhor a defesa que o coro de mulheres gregas faz de uma estrangeira. E conhecer pelo menos alguns desses antecedentes talvez seja importante para entender a "sacralidade" a que Antunes se refere. Afinal, além de explorar a psicologia feminina, a peça mostra que desgraça têm sua origem na quebra um juramento sagrado.Tudo começa quando Jasão reclama o trono de Iolcos (cidade situada na Turquia), usurpado por seu primo, que promete devolvê-lo, caso ele traga o velocino de ouro, em poder de Aietes, filho do Sol, pai de Medéia. Jasão embarca para Cólquida na nau Argo (daí argonautas). Lá chegando, Aietes promete entregar a pele do carneiro, desde que Jasão passe por quatro provas impossíveis de serem realizadas por um ser humano. Hera, mulher de Zeus, faz com que Medéia se apaixone por Jason e o ajude com seus poderes mágicos. Medéia ajuda, chegando para isso a matar o próprio irmão, mediante um juramento de fidelidade feito por Jasão num templo sagrado.Portanto, quando mais tarde Jasão quebra esse juramento seduzido pela idéia de casar com a filha do rei e tornar-se rico e poderoso, ele desrespeita o sagrado por um motivo nada nobre. E, em sua arrogância, desdenha a ajuda outrora recebida e ainda diz que Medéia devia agradecer o fato de viver na Grécia "civilizada" e não mais numa terra "primitiva" e "bárbara". Eurípides, ao contrário de Ésquilo e Sófocles, não faz de seus personagens joguetes dos deuses. O sagrado existe, deve ser respeitado, mas cabe ao homem a decisão. Medéia e Jasão poderiam evitar a tragédia.Medéia. De Eurípides. Adaptação e direção Antunes Filho. Duração: 70 minutos. Para convidados: Quinta e sexta, às 21 horas; e sábado às 19 horas. Para o público: a partir de domingo, às 19 horas. R$ 20,00. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel. 6096-8143. Até 26/9

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