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Estratégia para a crise

São essenciais o preparo intelectual, a administração do tempo e o cuidado do corpo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 02h00

Estamos em crise. A frase já foi dita tantas vezes que ficou inaudível. Funciona como o Pour Elise de Beethoven: a melodia está tão difundida que provocou surdez seletiva. Um dos problemas da repetição de avisos de perigo é que ficam como mensagens de aeroporto: muito significa nada.

 

A estratégia implica, entre outras coisas, selecionar recursos, energia e priorizar tarefas. Estratégia é usar recursos limitados, tempo limitado e pessoal reduzido para atingir um objetivo. Se tivéssemos tudo em abundância infinita, não necessitaríamos de estratégia. A crise aumenta a necessidade dela. 

A palavra estratégia tem raiz militar e grega. O estratego dirige a infantaria ou os arqueiros para onde serão mais necessários. Ele deve antecipar, criar o recurso disponível antes de ele ser necessário, especialmente no desenrolar de uma batalha rápida. Da China antiga, faz sucesso o tratado de Sun Tzu, A Arte da Guerra. Hoje, o livro é usado em treinamentos de vendedores ou de equipes de empresas. A linguagem militar é adaptada ao mercado. 

Pensamento estratégico trabalha com o real e projeta o ainda não ocorrido como uma possibilidade. Quanto mais eu consigo antecipar o tempo e adaptar a resposta às hipóteses, mais estratégico serei.

Estamos em crise. Há menos dinheiro, menos emprego, mais instabilidade política. Faltam horizontes e os mercados estão tensos. A estratégia deixou de ser um deleite estético para ser chave de sobrevivência. 

Entenda a crise como uma paisagem difícil e árida. Você precisa de água e proteção contra o sol , evitando os riscos da desidratação e da insolação. O pensamento imediato é: como sobreviver? Preservar recursos, apostar em algumas coisas conhecidas e tentar algumas novas. Porém, há uma perspectiva distinta dessa. Tão importante como atravessar o deserto é saber o que fará após ele. Que produtos sua caravana leva que possam interessar aos povos do outro lado? Toda crise passa, sempre. Não basta sobreviver, você precisa pensar na vida pós-crise.

Vamos a um exemplo. O mercado brasileiro dava tímidos sinais de que o pior da tempestade econômica estava sendo superado. Indícios mínimos, porém reais. A turbulência política atropelou tudo e deu um fôlego extra ao problema. Há a possibilidade de o alvoroto diminuir após 2018 (bata três vezes na madeira). Acalmado o campo da política, a economia volta a sair da UTI.

O que levar? Preparo, conhecimento, habilidades e atitudes pessoais. Exemplo concreto: estudo de línguas faz toda a diferença. Mundo cada vez mais globalizado e demandando habilidades de comunicação fora da zona de conforto da língua materna. Habilidades: você é um usuário do computador, todavia precisa aprender linguagens e programas novos. Todo novo conhecimento constitui uma ponte neuronial com o futuro. Ele leva para além do deserto. 

Atitudes pessoais contam. Administração do tempo é uma das mais importantes. Tempo é um valor medido de forma objetiva, porém seu aproveitamento é a coisa mais subjetiva já surgida nas culturas. Carpe Diem: a máxima de Horácio pode ser lida de muitas maneiras. Para alguns, quer dizer aproveite a vida, divirta-se. Para outros, envolve a noção capitalista e empreendedora de fazer o máximo de coisas em pouco tempo. Para mim, é tornar-se senhor do seu tempo e produzir ou descansar de acordo com seus objetivos. O ócio criativo de Domenico de Masi é um bom exemplo de Carpe Diem. 

Seu corpo deve ser funcional. Isso significa que deve corresponder, grosso modo, ao que você demanda dele. Cuidar dele implica alimentação equilibrada e alguma atividade física. Pensar no corpo é uma boa maneira de evitar ou adiar o dia em que ele vai pensar por você e impedi-lo de fazer coisas. Todos morreremos. Dar atenção ao corpo é evitar que isso ocorra muito antes do que deveria ocorrer. Não se esqueça de fazer as vacinas devidas. Corpo é estratégia. 

Preparo intelectual, administração do tempo e cuidado do corpo. Nada mais estratégico do que esse tripé. Acrescentarei mais um elemento. Parte do sucesso ou fracasso em qualquer atividade é a administração da nossa personalidade. Tipos coléricos, excesso de reação a coisas pequenas e impulsos podem ser os mais poderosos obstáculos para seus objetivos. Não incorpore a Gabriela de Jorge Amado: eu nasci assim! Personalidades podem ser trabalhadas como corpos. Você não supera a natureza, no entanto deixa de ser escravo dela.

 

Todas as questões identificadas podem significar um profissional: um médico, um psicólogo, um nutricionista, um fonoaudiólogo. Essencial conhecer-se e observar onde algum ponto pode ser melhorado. 

Nada antecipa o futuro. Nunca saberemos qual tigre pode pular na próxima esquina. Viver implica adaptação permanente a novidades positivas e negativas. Os tigres são surpreendentes. Como canta Fantine (musical Os Miseráveis, música I Dreamed a Dream): the tigers come at night... Haverá tigres, muitos, especialmente à noite. Estratégia é levar comida para eles, talvez uma arma ou fortalecer as pernas para correr. Tigres são terríveis, mas são gatos grandes. A crise vem para todos como ventania, estratégia torce os ventos para que sua vela se enfune. Boa semana para todos! 

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