Estranhos valores

Na sexta temporada de Mad Men, que estreia amanhã, Don Drapper enfrenta dias sombrios

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h12

Uma nuvem parece encobrir o glamouroso mundo de Mad Men. No primeiro episódio da sexta temporada, que estreia amanhã no Brasil, pela HBO, às 21 horas, a rotina desse time de publicitários da Nova York, no final dos anos 1960, continua mais ou menos a mesma: festas, bebidas, mulheres - tudo envolto em muita fumaça de cigarro. O tom é que parece mais sombrio do que de costume. Verdade que nunca faltaram dúvidas existencialistas ao protagonista Don Drapper (Jon Hamm). Seja qual for a aventura, os fantasmas volta e meia retornam para assombrá-lo. Ao longo de toda a quinta temporada, que, aliás, acaba de ser lançada em DVD, já apareciam os indícios de quão terrível pode ser a presença de todos esses mortos insepultos ao seu redor.

Mesmo relativamente ausente dos negócios, Don viu a empresa reerguer-se. Nunca houve tanto dinheiro. Nem tantos clientes importantes. Mas todo sucesso da Sterling Cooper Draper Pryce parece repousar sobre uma base sórdida. Peggy Olson (Elisabeth Moss) saiu debaixo das asas de seu tutor. Joan (Christina Hendricks) tornou-se sócia a um alto custo. Há ecos de sexo e morte por toda parte.

Na cena de abertura da nova temporada, Don aparece de férias com Megan no Havaí. O cenário paradisíaco, com direito a sol escaldante e moças dançando a hula-hula, só acentua o contraste com o que vai dentro desse estranho herói. Deitado à beira da praia, o publicitário lê o Inferno de Dante: está mergulhado em um mundo de vozes estranhas e vapores putrefatos. A seu lado, o corpo da própria mulher em um biquíni não lhe suscita afeto ou desejo, mas alguma lascívia em seu estado máximo.

Quem também volta a se envolver nas sombras é Betty (January Jones), ex-mulher de Don. E não é só o excesso de peso que a outrora modelo não consegue perder o que a atormenta. A TV Cultura começa a exibir esta semana a primeira temporada da série. É uma boa chance de rever as origens do mal-estar de Betty Drapper, hoje Betty Francis. Ela está agora em busca de uma amiga desaparecida de sua filha, Sally. As duas trocaram confidências. A menina desapareceu. E ela enfrenta o submundo de Manhattan - uma casa abandonada onde vivem dezenas de adolescentes sem família - em busca de uma pista.

Megan (Jessica Paré), a nova sra. Drapper, largou o emprego que tinha na agência e amargou boa parte da última temporada em busca de um lugar ao sol. Conseguiu, finalmente e, com um empurrãozinho do marido, entrar no tão concorrido mercado das artes. Mas a sua felicidade talvez não faça assim tão bem à vida conjugal. Depois de um longo período de harmonia em casa, Don retoma a rotina de infidelidades do seu casamento anterior e começa a ter um caso com uma vizinha. Certa vez, tentando angariar um cliente, o protagonista questionou: "O que é felicidade? É um momento antes de você precisar de mais felicidade". Pode ter sido só uma frase de efeito, mas guarda seu quinhão de verdade. Don, invariavelmente, precisa de mais. Não se trata de fome - nem de outras mulheres nem de outros amores. Nem de poder nem de sucesso. É uma dor, que sempre torna a doer, e precisa (até quando?) de mais uma dose de anestesia.

Nostalgia. Nunca antes vista em rede aberta no País, Mad Men será exibida do zero a partir de quarta, às 22 horas, na TV Cultura. A emissora adquiriu 52 episódios da produção, que correspondem às quatro primeiras temporadas, rodadas entre 2007 e 2010. Vencedora de quatro prêmios Globo de Ouro e 15 Emmy, o troféu mais importante da TV, nos EUA, a série é uma criação do produtor Matthew Weiner, o mesmo de sucessos como Família Soprano, com o qual também foi laureado. Em 2011, ele foi eleito uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista norte-americana Time.

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