Estranhos se afogando

Livro de jornalista americana fala de pessoas que mudaram de vida para ajudar os outros

Vanessa Bárbara, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 03h00

Enquanto você está aí lendo o jornal, Aaron Pitkin dedica todas as horas de sua vida tentando mitigar o sofrimento das galinhas. Enquanto você vai a uma confeitaria chique e gasta R$ 12  num brigadeiro gourmet, Julia Wise doa o salário inteiro para instituições de caridade. Também a enfermeira Dorothy Granada decidiu largar uma vida de classe média para enfrentar uma guerra civil e cuidar de mulheres pobres na Nicarágua. E Paul Wagner achou que ter dois rins era uma extravagância, portanto doou um deles para um desconhecido.

Lançado há pouco mais de duas semanas, Strangers Drowning é um livro de não ficção sobre pessoas que resolvem devotar suas vidas a ajudar os outros. A obra, escrita por uma jornalista da revista New Yorker, Larissa MacFarquhar, apresenta uma série de perfis sobre esses notáveis indivíduos que seguem diretrizes éticas muito rígidas e extremas estabelecidas por eles mesmos, na esperança de tornar melhor o mundo onde vivem.

Não é, porém, um livro sobre a vida de santos. Naquilo que é uma de suas principais qualidades, junto com o dom de contar histórias, MacFarquhar cuida para que haja complexidade nos relatos, expondo tanto os feitos heroicos de seus personagens quanto seus momentos de fraqueza; abordando os dilemas que eles enfrentam, as contradições de suas ideias e o preço que eles têm de pagar. Alguns fazem boas ações em detrimento do bem-estar de seus próprios familiares, como o indiano que abriu um leprosário e levou a esposa e os filhos, ainda bebês, para uma região remota e perigosa. Não há respostas fáceis.

O título se refere a um ensaio do filósofo utilitarista Peter Singer, que afirma que a maioria de nós, ao se deparar com uma criança se afogando, correria para salvá-la. Que diferença faz, então, se essa criança não estiver na nossa frente, mas em outra parte do mundo?

A história mais impressionante é a de Hector e Sue Badeau, um casal que adotou vinte crianças, muitas delas com deficiências graves e doenças terminais. No meio da narrativa, a autora enumera os resultados: três filhos morreram, dois foram presos e nove engravidaram muito jovens. O leitor pode considerar que o casal fracassou na empreitada, mas MacFarquhar pondera: o que seria dessas crianças se não tivessem um lar? Além disso, a maioria hoje está bem empregada e feliz, e todo ano há uma tonelada de aniversários, casamentos e batizados dos netos e dos bisnetos.

Em nenhum momento, o livro se presta a dar lições de moral; limita-se a narrar as histórias. Em certo trecho, ela cita uma frase do ensaísta James Baldwin que se aplicaria ao seu próprio livro: “Apenas nessa rede de ambiguidade e paradoxo, nessa fome, perigo e escuridão é que podemos nos encontrar. Esse poder de revelação é a missão do escritor, uma jornada rumo a uma realidade mais vasta que deve tomar precedência sobre quaisquer outras pretensões”.

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