Estranho no ninho

El Vuelco Del Cangrejo acompanha estrangeiro numa comunidade litorânea

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Mérito. Ficção em formato de documentário, filme colombiano já foi premiado em Berlim

 

 

 

 

Ana Carolina, a cineasta, fez piada ao receber o troféu Eduardo Abelim, como homenageada do 38.° Festival de Cinema de Gramado por sua extraordinária carreira. Ela disse que, ao pisar no tapete vermelho, caiu a ficha. Por maior que seja o reconhecimento do prêmio, ele implica comprometimento e desafio. Brincando ou não - muito provavelmente, sim, considerando-se seu humor afiado -, Ana Carolina prometeu brigar pelo Oscar no próximo filme, A Primeira Missa, que ainda busca recursos para ser realizado.

 

A noite de quarta foi das mais curtas desta edição. Foram exibidos dois concorrentes com cerca de 90 minutos cada um, o latino El Vuelco Del Cangrejo, de Oscar Ruiz Navia, da Colômbia, e Ponto.Org, de Patrícia Morán, do Brasil. O filme colombiano já havia recebido o prêmio da crítica no Festival de Berlim, em fevereiro, onde passou na seção Forum. É muito interessante, uma ficção que se constrói como um documentário, ambientada numa comunidade litorânea. Chega este estrangeiro, apenas de passagem pelo local, à espera de uma embarcação que o leve não se sabe para onde. O diretor Navia também não se preocupa em esclarecer por que esse homem quer partir. Mas ele carrega uma foto, de uma bela mulher, que volta na imaginação.

 

A comunidade é de pescadores. Predominam os negros, liderados por um comerciante que se autointitula O Cérebro. Ele tem uma sobrinha, ou amante, que é objeto de desejo dos pescadores mais jovens. Eles passam o tempo jogando futebol ou conversa fora, quando não participando de pequenas atividades (i)lícitas. O estranho, Daniel, é branco e ganha a garota, da qual passa o restante do filme fugindo, certamente para não se complicar. Nada é conclusivo em El Vuelco del Cangrejo, mas os personagens e seus ambientes ganham um olhar tão honesto quanto observador.

 

Definido pela produtora Sara Silveira como mais um filme autoral e corajoso de sua lavra, Ponto.Org radicaliza as pesquisas de linguagem - e suportes - que têm dado o tom da carreira da cineasta. Patrícia Morán é mineira. Ela investiga o universo dos moradores de rua de São Paulo. Existe essa videomaker - alter ego da própria Patrícia? - que fornece uma câmera para três meninos de rua. E existe a grande atriz do grupo mineiro Galpão, Teuda Bara, a quem cabe a ingrata tarefa de tentar humanizar a moradora do Minhocão, em São Paulo. O filme começa sem diálogos, num blecaute que paralisa a cidade (e o metrô). Patrícia brinca com cores, texturas. Ao cabo de meia hora, quando começam a falar, os personagens só dizem banalidades. O resultado é tão pretensioso quanto inócuo, exatamente o contrário da observação minuciosa sobre os pescadores do filme colombiano.

 

Melhores. Como um estrangeiro, o espectador não sabe nada sobre eles, mas o movimento que capta é vital. É mais do que se pode dizer do filme brasileiro. O festival, que este ano ganhou mais três dias, aproxima-se do fim. A premiação será amanhã à noite. Os melhores, até agora - ainda faltavam dois concorrentes, ontem à noite -, são o chileno Minha Vida com Carlos, de Germán Becker, e o brasileiro Bróder, de Jefferson De. Hoje, será exibido, fora de concurso, o último brasileiro da mostra principal - Ex-Isto, de Cao Guimarães, livremente adaptado de uma das obras emblemáticas do poeta Paulo Leminski, o romance Catatau, de 1975, no qual o autor lança a hipótese sobre o que poderia ter ocorrido se René Descartes tivesse acompanhado Maurício de Nassau, quando veio para o Brasil.

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