Estranhamento em relação a si mesmo

BOM

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Há uma metáfora que aparece em determinado momento de Solo. O personagem conta que um dia veste uma meia e não reconhece o próprio pé. Esse instante é fatal. Como uma tomada de consciência súbita de que os anos passaram. Ao mesmo tempo, esse sentimento em relação ao corpo pode significar um estranhamento geral, tanto de si mesmo como em relação ao seu meio e época. O personagem já não é contemporâneo de si mesmo.

O homem medita sobre esses fatos e sua rememoração se parece a uma sessão psicanalítica. Levado pelo fluxo de associações, reconstrói a sua experiência através de uma fala que, em aparência, vaga ao acaso das palavras. No entanto, longe de ser caótico, o mosaico de impressões que daí surge monta-se como um conjunto bem coerente. Esse homem, pouquíssimo à vontade no presente, é uma memória viva de um tempo e de um país que já não existe. Intui-se que ele fazia parte de uma aristocracia que decaiu, da mesma maneira que alguns bairros decaem.

Esse tom às vezes decadentista, não esconde o que de fato parece ser a preocupação que orienta o filme: a da degradação das formas de se viver. Em um filme anterior, chamado Uma Outra Cidade, Giorgetti já abordava essa degradação do Centro, sob pretexto de falar de uma geração de poetas, como Roberto Piva, Rodrigo de Haro e Claudio Willer. O Centro, com a Biblioteca Municipal, o Paribar, a Galeria Metrópole era o pulmão intelectual de uma cidade que se perdeu. Cidades, assim como as pessoas, às vezes perdem seu "centro". Isto é, perdem-se a si mesmas.

Solo é a continuação, em termos ficcionais, sobre essa meditação do cineasta sobre a sua cidade, o seu mundo e o seu tempo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.