Estrangeiros interessam-se pela obra de escritor brasileiro

Tão logo o jornal americano The New York Times distribuiu sua edição do dia 7, os telefones da Companhia das Letras começaram a tocar com insistência e a caixa do correio eletrônico a estufar - eram agentes literários americanos, italianos, franceses, interessados na obra do "professor que se tornou novelista", segundo o título do Times Luiz Alfredo Garcia-Roza.Criador do primeiro curso de pós-graduação em teoria psicanalítica do País, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Garcia-Roza não despertou interesse estrangeiro pelos oito livros sobre a teoria freudiana que escreveu, mas pela figura do policial Espinosa, personagem titular dos três romances policiais que publicou: O Silêncio da Chuva (1996), Achados e Perdidos (1998) e, em 1999, Vento Sudoeste (Companhia das Letras, 210 págs., R$ 19,00).Apaixonado pela economia e precisão encontrados nos escritos de Raymond Chandler e Dashiell Hammet, Garcia-Roza construiu, porém, um personagem completamente diferente de Philip Marlowe ou Sam Spade - Espinosa é um protagonista meio "gauche", um tanto excêntrico, no sentido de que não está bem encaixado em lugar nenhum."Ele não é o herói, não é como os personagens dos romances policiais da década de 40, que eram, por exemplo, aventureiros por excelência", comenta. "É um ser mais reflexivo, sem ser um intelectual e sobretudo tem um mal-estar na vida." A inspiração, confessa, do nome é o pensador holandês Espinosa, uma das figuras mais nobres da filosofia e também uma das mais investigativas.Essa personalidade tortuosa permite que as histórias sejam construídas fora do riscado tradicional. Assim, em Vento Sudoeste, por exemplo, o que importa não é descobrir quem é o assassino, mas qual dos personagens será assassinado. Gabriel, um jovem administrador de empresas, ouvira de um vidente desconhecido, em sua festa de aniversário, a previsão de que iria matar alguém antes que fizesse anos novamente. Com a proximidade da data e atormentado com a possibilidade de se tornar um assassino, Gabriel procura Espinosa que, como alguns policiais de carne e osso, acredita na história, apesar de nenhum crime ter sido consumado.Garcia-Roza não distorce, porém, a fórmula tradicional da leitura policial, pois, quando mortes estranhas começam a acontecer, o romance dá uma reviravolta e põe no leitor, seguro de que Gabriel iria cometer algum crime, a dúvida comum à boa literatura de suspense: quem é o assassino?Curiosamente, nesse momento, tão atônito como o leitor está o policial Espinosa. "É quando entramos em uma faixa intermediária da sociedade, ocupada por profissionais tão distintos como policiais e psicanalistas: o universo e seu reverso, ou seja, o normal e seu oposto", acredita o autor. "O território em que eles trabalham é dividido por uma linha entre sanidade e loucura, ordem e desordem, normal e patológico; assim algumas atitudes consideradas ilegais são aceitas como naturalidade."Autor de estudos psicanalíticos de peso, Garcia-Roza preferiu fugir de psicologismos, criando um universo totalmente distinto. "O mundo conceitual é quase o oposto do da ficção, por isso evitei um olhar psiquiátrico da vida ao escrever o romance."O autor preferiu perambular pelas ruas e vasculhar todos os pontos de Copacabana, no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu há 63 anos e que participa ativamente de seus livros. "A geografia é vital no desenrolar da história; acredito que o Rio está para o enredo assim como o corpo está para o espírito: é indissociável", conta Garcia-Roza, que ainda hoje não dispensa passeios pela cidade, à busca de sons e imagens para uso futuro.Nos últimos meses, o escritor interrompeu a criação da quarta aventura do policial Espinosa para atender a um pedido de sua editora e participar da coleção Literatura ou Morte, em que autores escrevem ficção que envolve personagens reais.Garcia-Roza escolheu Herman Melville (1819-1891), escritor americano clássico (Moby Dick, Bartleby, o Escrivão), um homem privado e silencioso, que abriu sua mente apenas para algumas poucas pessoas que o cercavam. "Sou apaixonado por Melville, mas acho que fiz uma escolha difícil", confessa. "Quando terminei o texto, percebi que, apesar da total liberdade de criação, meu personagem era muito parecido com Bartleby; por isso, decidi retrabalhar o romance e me desfazer de tão forte influência."Palidamente delicado, lamentavelmente respeitável e irremediavelmente desamparado, Bartleby, o escrivão, é uma das principais criações do gênero da fantasia do comportamento e do sentimento. "Trata-se de uma figura excepcional e muito marcante", afirma Garcia-Roza, já saudoso, porém, de seu Espinosa.

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