Estradas

Filho. Quando o ônibus sai da estrada ele acorda no mesmo sobressalto de todas as vezes: o motorista dormiu ao volante, despencamos por um barranco dentro de um rio qualquer. Mas não: é outra parada para reabastecer.

Maria Rita Kehl, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Só o motorista e ele descem para o ar fino da madrugada. Os outros dormem. Pede um pingado e um pão de queijo antecipando a sensação: o café será doce demais e o pão borrachudo. Mas a combinação de um gole e uma dentada cai no estômago vazio aquecendo o corpo por dentro. Consoladora. A parada das cinco da manhã é a melhor de todas.

Fica do lado de fora à espera enquanto o motorista fuma um cigarro e conversa com o servente do posto. Pensa que se fumasse, o momento seria perfeito: recém-saído do sono, um homem olha a estrada envolto na fumaça que sai de seus pulmões, dentro de um país muito grande, perto de uma vila tão desimportante que nem chega a fazer um pontinho no mapa. Mas não fuma.

O céu violeta é muito alto, a luz velada da única estrela está bem acima da capota do ônibus e o cheiro do óleo diesel no ar limpo parece uma coisa secreta, que tem o efeito excitante de algo que não deveria estar ali. Aqui vive gente, ele pensa. Aqui vivem pessoas que devem acordar logo mais, fazer coisas comuns, levar a vida sem pensar que para mim, 15 minutos atrás, elas não existiam. Nem no mapa.

Assim que conclui essa ideia a dor faz um ponto dentro dele e se alastra rápida, como a mancha de uma caneta tinteiro embicada sobre um mata-borrão. O motorista abre a porta e ele volta para sua janela. Agora que saiu lá fora, sente o hálito ruim do ônibus fechado. Cheiro de gente dormindo. O barulho do motor ao ser acionado é uma espécie de tranco, um tranco sonoro. O ônibus dá ré, faz uma volta para a esquerda e retoma a estrada. O corpo dele já sabe as manobras de cor.

Aposta numa cura pela quilometragem: passa o ano percorrendo distâncias enormes para todos os cantos do país por conta do trabalho. Tem esperança de que algum dia sinta-se tão longe, que a enorme mancha de dor fique cada vez mais minúscula, até se tornar um pontinho perdido no mapa; como a cidade insignificante que ele esquece assim que o ônibus retoma a estrada outra vez.

Pai. No fim da curva o farol alto atinge seus olhos de frente. Ele se vê executando três atos ao mesmo tempo, em câmara lenta. Como num filme, se ele visse algum: mete a mão na buzina, pisa o freio e vira a direção para a direita, deslocando o corpanzil do caminhão para a beira da estrada. O carro passa zunindo entre ele e o ônibus que vem em sentido contrário: ultrapassagem suicida. Ainda furioso com o motorista, pensa com ironia que naquela estrada os caminhões é que costumam ultrapassar assim, jogando os carros de passeio para o acostamento. Que carro era aquele? Nem viu. Que morra, ele pensa. Que morra sozinho, sem matar os outros. Filho da mãe.

Sente um frio gelado por dentro e em seguida um calorão que se espalha até o alto da cabeça. Do ponto de congelamento ao ponto de fervura em dois segundos: só o corpo é capaz de uma velocidade assim. Agora a estrada está deserta outra vez. Ainda não amanheceu; é a melhor hora, a mais fresca, mas a hora do sono também. Não devia ter ficado na farra, noite passada. Não sou mais criança. Mas ? vez ou outra ? ninguém é de ferro. Depois do almoço paro pra tirar um cochilo e fico novo em folha. Pronto pra outra.

De repente percebe que o efeito do susto ainda não passou. Está ofegante. Suando nas mãos. Se eu tivesse um celular agora, ligava pra casa. A esta hora? Ia acordar as meninas, assustar a mulher, que bobagem. Melhor não ter celular. Aliás, de tão longe nem ia alcançar a área ? é assim que eles falam. Fora da área.

Sente um tranco esquisito. Um elevador começa a descer dentro do peito dele. Não passa ninguém na estrada. Ele conhece os buracos de cor, mas a cada viagem aparecem novos. Uma vergonha, essa estrada: liga duas capitais ? sem condições. Alguns trechos são tão ruins que acontecem assaltos; esfomeados da região já sabem que ali os caminhões só conseguem passar a dez por hora, como numa estrada de terra. Quem é o ministro dos Transportes? Quem foram os últimos três ministros dos Transportes?

Alguma coisa começa a falhar no motor. Reduz a marcha, pisa forte o acelerador, xingando como sempre: ô máquina ruim. Mas não foi o motor; foi um soluço dentro dele, uma interrupção rápida da energia, depois uma retomada caótica, intensa demais, trepidante. De novo. Ai meu Deus.

Lembra a conversa que teve uma vez com um cara no Posto. Que na hora do aperto, até o herege implora a Deus. Pois eu não vou pedir, ele disse. Se Deus não acode tanta gente piedosa, que passa a vida rezando, por que vai me acudir nessa hora? Duvido que você não peça, disse o outro. Na hora você vai ver. Quer apostar? Apostaram.

Não é Deus que ele quer, é um telefone. Pra falar com a mulher: o que é isso? Será que estou morrendo? Ela ia saber. Sempre sabe. Se fosse coisa ruim, teria intuição.

O elevador desceu de novo, dessa vez em queda livre. Telefonou para Deus, mesmo. Só pra falar com alguém. Não estou te pedindo nada, ouviu? Não peço nada!

Ainda teve tempo de parar o caminhão no acostamento.

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