Estrada mais perigosa

Em Rota Irlandesa, Ken Loach fala da guerra no Iraque a partir de força de segurança que atua entre o aeroporto e o centro de Bagdá

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2012 | 03h09

Em Cannes, em maio, em conversa com o repórter do Estado - sobre seu novo filme, a comédia The Angel's Share -, Ken Loach falou de sua expectativa pela reação do público, mas disse que dificilmente conseguiria superar a bilheteria de Route Irish, Rota Irlandesa. O filme estreia hoje nos cinemas brasileiros. Repetirá o sucesso? Ken Loach é um diretor que tradicionalmente obtém ressonância junto a um público que não é só cinéfilo, mas também é politizado - até militante. Ele próprio ri quando se define como o último socialista.

Mark Womack conversa pelo telefone com o repórter do Estado. É um astro de TV, com participação em séries importantes na TV inglesa. Ele conta de sua satisfação de trabalhar com Loach. "É um grande diretor e sua parceria com (o roteirista) Paul Laverty é das mais criativas do cinema atual. A Guerra do Iraque é um tema candente na Inglaterra. Tivemos perdas humanas muito grandes, por conta do apoio do governo à guerra de George W. Bush. Foi uma guerra impopular. Quando Loach me contactou, claro que fiquei excitado."

O filme é sobre a estrada mais perigosa, que liga o aeroporto à cidade de Bagdá. Conta a história de Fergus, antigo combatente que convence amigo de infância a se integrar a uma força de segurança no Iraque. A promessa é de ganharem muito dinheiro, mas o amigo morre e Fergus, insatisfeito com a explicação oficial, volta para a Inglaterra, e a Liverpool, para investigar o que ocorreu. O formato é de thriller. A investigação leva a revelações explosivas.

"Sou de Liverpool e venho do mesmo meio operário que os personagens de Route Irish. Num certo sentido, foi como voltar para casa e reencontrar minhas origens. Posso ter ganhado projeção e dinheiro na minha vida, mas se há uma coisa que não perdi de vista é quem sou", diz o ator. Ele conta que, para cooptá-lo, Loach e Laverty fizeram uma vaga descrição do filme. Garantiram que ele teria muito trabalho e que a rodagem seria dura. "Nada de trailer com todo conforto. Ken gosta de fazer com que os atores compartilhem a experiência dos personagens." Ele explica por que a estrada do aeroporto chama-se Route Irish - "O nome vem do time de futebol da Universidade de Notre Dame, the fighting irish, os irlandeses lutadores."

Womack acrescenta que tomou um choque ao descobrir o que ia ocorrer com ele no desfecho do drama - e que você vai ter de assistir ao filme para saber. "O filho da mãe (Loach) nunca me deu o roteiro, aliás, ele não dá o roteiro para ninguém. As páginas vão sendo entregues à medida que filmamos e, às vezes, para obter certos efeitos, ele fornece os diálogos para um ator, para que ele dê o diapasão, mas o restante do elenco que participa da cena tem de improvisar. Não é um método que funcione para muita gente, e certamente não se parece em nada com o que fiz na TV, mas com ele o resultado é mágico. Você se envolve muito mais, participa muito mais. O filme deixa de ser um trabalho e vira uma experiência de vida."

Womack já assistiu a The Angel's Share, sobre um grupo de desempregados que planeja roubar um galão de uísque raro, que vale uma fortuna. "Achei muito divertido e muito humano, a cara de Ken." E ele acrescenta que só quem não conhece o diretor pode se surpreender com o humor do filme. "O mais interessante em Ken é que ele consegue ser excepcionalmente sério, e comprometido, sem perder o foco de que o filme é um trabalho de grupo e que as pessoas não estão ali para sofrer. Por mais intensa que seja a cena, o clima é de solidariedade e colaboração."

Ele não poupa elogios a Paul Laverty. "Pode parecer incoerente, porque estou dizendo que ele não fornece os diálogos, e coisa e tal, mas na verdade o desenho dos personagens e a preparação do elenco são muito consistentes. Esses caras (Laverty e Loach) sabem sobre o que estão falando."

Durante a filmagem, Womack admite que teve um contacto muito grande com soldados de verdade e com os agentes que os convocaram para fazer a guerra por dinheiro. "A maioria deles compreendeu a importância do filme. Não os estamos criticando como indivíduos, mas o fato de a guerra ter sido privatizada em nome de interesses espúrios. Existe a boa guerra, mas esta não é, nunca foi e é bom que Ken Loach tenha resolvido nos mostrar isso. Route Irish vai ser sempre um momento importante da minha vida (e carreira)."

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