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Lúcia Guimarães
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Estimação de animais

Na calçada, o grupo diverso espera sentado. Eles têm idades, tamanhos e temperamentos diferentes, mas aprenderam a ficar em repouso por alguns minutos. Com sua força física somada, uma reação súbita os levaria a derrubar o frágil poste de metal que sustenta o toldo da entrada do meu edifício. A cena se repete em qualquer quarteirão da cidade. Os dog walkers, pessoas que passeiam com os cachorros dos ocupados nova-iorquinos, amarram os bichos na porta de prédios enquanto vão recolher mais um para a caminhada matinal. Observando o tamanho dos grupos é fácil acreditar por que a profissão informal, frequentemente exercida por estrangeiros sem documentos, permite uma renda mensal superior, às vezes, à do cliente que contrata o serviço.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2014 | 02h05

Pelo menos 83 milhões de cachorros vivem nos Estados Unidos e, desde os anos 70, eles se multiplicaram mais rápido do que a população humana. A explosão da indústria americana de animais de estimação, com receita estimada este ano em US$ 60 bilhões haveria, é claro, de ser importada no surto de emergência consumista brasileiro, onde não basta imitar estilos de vida, é preciso desfrutá-los em inglês. Deixei um país com animais domésticos e bicicletas e o reencontro cheio de pets e bikes. Mas importamos também o lado nefasto da indústria: os canis inescrupulosos, em que a ganância resulta na reprodução de animais com defeitos genéticos, e a falta de critério para trazer um animal para casa. Nos Estados Unidos, mais de 60% das pessoas que moram sozinhas têm animais domésticos.

Além de ótimo companheiro, os médicos confirmam que a presença de um cachorro faz bem à saúde do dono: Contribui para baixar a pressão, combater a melancolia e força idosos a fazer mais caminhadas. Há grupos de voluntários que levam cachorros para alegrar crianças hospitalizadas. Há todo tipo de grupo de apoio e até uma associação de combate à obesidade canina, que só aumenta, pelos mesmos motivos que fazem aumentar a humana.

Se você notar alguém num restaurante nova-iorquino acompanhado de um cachorro usando um colete como um uniforme, pode concluir que a exceção à proibição habitual de entrada de qualquer bicho se deve ao fato de se tratar de mais do que um animal de estimação: ele é um acompanhante terapêutico, assim designado porque um médico comprovou que um paciente sofredor de, digamos, síndrome de pânico, se beneficia da companhia constante de um cachorro. Os americanos na verdade têm mais gatos do que cachorros, mas, além de afeto de felino pelo dono ser mais comedido, seu cuidado requer muito menos atenção e esforço físico.

Só no meu edifício, conto uns três cães que gostaria de ter denunciado a um juizado de menores para bichos. Há a recém-divorciada com dois filhos, um imenso Golden Retriever e sem a menor paciência para os três. Mas os meninos ao menos gastam energia na escola fazendo esportes, enquanto o animal, que precisa de exercício, vai ficando cada vez mais neurastênico, isolado no apartamento, e já mordeu uma diarista. Há um homem com evidente distúrbio mental, notório por brigar com porteiros e vizinhos, que decidiu adotar um pitbull de um abrigo - combinação explosiva. E há, tristemente, uma idosa, que tanto precisa da companhia, mas mal consegue exercitar seu adorável vira-lata porque caminha com dificuldade.

No ano de 1997, milhares de dálmatas foram encontrados vagando por ruas e estradas americanas ou abandonados em abrigos. Tinham sido comprados ainda filhotes por famílias que não aguentaram a trabalheira que dá esta raça de cão. Mas seus filhos os acharam uma gracinha na tela quando assistiram ao filme 101 Dálmatas. Episódios como este ilustram uma forma de negligência que não discrimina por classe ou pressão econômica.

Os Estados Unidos conseguiram diminuir drasticamente a eutanásia de cachorros com campanhas pela adoção nos abrigos. O casal Obama foi bastante criticado em 2009 quando adquiriu sua primeira cadela da raça cão d'água português de um canil e não deu o exemplo da adoção.

A medicina estende a vida, nem sempre com qualidade de vida. Ouvi de um veterinário nova-iorquino um desabafo que soava meio culpado: "Graças a cirurgias e remédios, os cachorros doentes estão vivendo mais e seus donos não aguentam tomar conta deles nos anos de velhice prolongada". Está aí uma indústria cujo crescimento, sem educação do consumidor, a longo prazo, incentiva a crueldade.

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