Estilo. O úlltimo rebelde da moda

Jeremy Scott encanta de Madonna a Karl Lagerfeld ao criar para si mesmo

WILLIAM VAN METER , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h07

Um homem de patins com sobrancelhas de Vulcano, drag queens, excêntricos de clubes noturnos e entendidos da moda se reuniram no desfile de setembro de Jeremy Scott, um devaneio misturando cabelos metálicos com matutos. Primeiro, Scott convocou um promíscuo mundo jeans. Um modelo vestia um short franjado tão justo que Daisy Duke ficaria horrorizada.

Depois veio um elemento cowboy. Um modelo masculino com perneiras de couro verdes e suporte atlético ganhou uma ovação (não ficou claro se os aplausos foram para o acessório ou para o volume com que o homem o preenchia). No final do desfile, Scott não espiou apenas dos bastidores para acenar, mas disparou pela passarela, o estilista como grand finale.

"Se não percorresse ela toda, os fotógrafos não obteriam uma foto", disse, alguns dias depois, sentado do lado de fora de um bar de sucos no East Village. "Não gosto de me expor tanto." Scott, que certa vez fechou um desfile reclinado numa escultura de nuvem e arremessando dinheiro falso com seu rosto estampado, acrescentou com seu sotaque típico de Missouri, "tanto quanto deve ter parecido".

O visual naquele dia foi repleto de influências Batman. Ele vestia uma camisa de hóquei com uma imagem costurada à mão do Cruzado de Capa surrupiada de uma fronha. Rabiscada com caneta de marcar na aba de seu boné de Batman dos anos 80 estavam as palavras: "Melhores votos de morcego a um super-herói da vida real".

Scott, hoje com 37 anos, amadureceu na era "antimoda", aproximadamente de 1997 a 2001. No grupo, estavam Imitation of Christ, Miguel Adrover, Susan Cianciolo, Pierrot, Katayone Adeli - estilistas fazendo que bem queriam, dane-se a comercialidade. Carreiras, licenciamentos e perfumes não estavam no radar. Na guerra de desgaste que se seguiu, Scott acabou sendo o único sobrevivente. Ele é o último rebelde existente.

"Muitos estilistas ficam assustados e tentam agradar seu público", disse a pop star Katy Perry, uma devota de Scott. "Jeremy desenha para seu próprio prazer." Scott é o único dono da etiqueta que leva seu nome. Com suas colaborações bem-sucedidas com a Swatch e a Longchamp, ele conseguiu um mercado de massa sem abandonar seu senso de design bizarro (os relógios e bolsas tendem a se esgotar na primeira semana). Sua linha Adidas é um hit particularmente maluco: os tênis adornados com ursinhos de pelúcia estofados e agasalhos com listas de tigre são uma tomada de hip-hop em Onde Vivem os Monstros. No próximo outono americano, ele pretende abrir sua primeira butique, em Los Angeles. Na quarta-feira, abriu uma loja temporária em Art Basel Miami Beach.

"Diferentemente de muitos estilistas, Jeremy permanece preparado para suas colaborações", disse Marc Beckman, um fundador da Designers Management Agency, que intermedeia muitas dessas colaborações. "Veja as asas que ele coloca nos tênis Adidas. Elas combinam perfeitamente com o que ele está fazendo com a Swatch. O compartilhamento de temas ajuda na sua própria construção de marca." (Nem Scott, nem as companhias com as quais trabalha quiseram divulgar números de vendas).

Ao mesmo tempo em que fazia o papel de brincalhão e provocador punk, Scott foi ambicioso desde muito jovem. Aos 14 anos, começou a estudar francês e a frequentar cursos noturnos. Isso era um meio para um fim. Paris era a capital mundial da moda, afinal. "Eu estava obcecado por moda", diz. "Estava sempre rabiscando adereços ou reformando roupas de brechós." Em 1992, ele se mudou para Nova York para estudar no Pratt Institute.

Após se formar em 1996, Scott cumpriu seu destino manifesto e mudou-se para Paris, na esperança de um estágio. "Tudo o que eu queria era apanhar alfinetes no chão." Ele pousou de favor em conhecidos e chegou a dormir no metrô. Sua busca por trabalho não remunerado foi infrutífera. Na temporada seguinte, em 1997, Jeremy Scott, a marca, fez sua estreia num bar perto da Bastilha. O desfile se baseou em desastres de carros e foi a primeira aparição fugaz de sua pequenina musa, a futura supermodelo Devon Aoki. O desfile teve camisolas hospitalares de papel pregueadas com insetos de Plexiglass. Os calçados não pegaram - as modelos andavam descalças com os saltos de sapato presos com ataduras à sola dos pés.

Seu trabalho se tornou mais agudo e maneiroso. Uma coleção de capas e bolsas saturadas de logos foi uma punhalada atrevida na logomania. Ele criou roupas originais para Madonna. Karl Lagerfeld acolheu Aoki como o rosto de Chanel e Scott como seu protegido de fato, alardeando seus talentos e trabalhando com ele em ensaios fotográficos. Scott e várias pessoas próximas dele sustentam que a Gucci tentou comprar sua empresa em 2001. (A Gucci não quis comentar para este artigo).

"Recusei empregos de Pucci, Versace, Paco Rabanne, Chloe", conta. "Uma vez, dei três entrevistas em um dia." Mas o sacrifício caminhou de mãos dadas com o fascínio.

"Minha independência e minha voz são importantes", diz ele. "As pessoas podem circular por essas casas. Pense em Ungaro. Eu queria construir meu nome. Eu falo para uma faixa etária jovem, e muitos deles não ligam para essas marcas de perfume." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Nascido na cidade americana de Kansas, em 1974, Scott iniciou seus estudos nos EUA até aprimorar em Paris. Sua criatividade, baseada em explosão de cores, impressionou os veteranos: segundo Karl Lagerfeld, Scott é o único estilista que poderia sucede-lo na casa Chanel.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.