GABRIELA BILO / ESTADAO
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Estilista mineiro João Pimenta se aventura pela primeira vez em curta-metragem

‘Anthropos’ é produzido pela Sagaz Filmes, com direção de Renata Sette, e será exibido, para convidados, no Museu da Imagem e do Som (MIS), no dia 22

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2016 | 05h00

Cinco homens chegam a uma alfaiataria. O trabalho de quem faz uma roupa sob medida é de uma precisão tamanha que o local mais parece uma sala de cirurgia. Não se sabe se aqueles objetos em cima da mesa são instrumentos de um cirurgião ou de um alfaiate. Na realidade, esses cinco personagens nada mais são do que as diferentes facetas de uma mesma pessoa que entram em conflito entre si para que uma delas domine a situação e imponha seu estilo na peça a ser construída. E o desafio do alfaiate nesse momento? Não é de escolher uma das facetas para seguir o caminho, mas, sim, unificar todas elas em uma única roupa. 

Essa é a história contada, em quase dez minutos, no curta-metragem Anthropos (homem, em grego), produzido pela Sagaz Filmes, com direção de Renata Sette e que será exibido, para convidados, no Museu da Imagem e do Som (MIS), no dia 22. O roteiro de Marcelo Aleixo Machado partiu do argumento do renomado estilista mineiro João Pimenta, que também assina os figurinos do curta. “Assim que a gente sentou para falar do projeto, apresentei várias ideias de alguns sentimentos que eu tinha em relação a essa questão do sob medida”, explica o estilista, especializado em moda masculina, que mantém seu ateliê no bairro de Pinheiros, em São Paulo. 

 uma rotina com a qual João está familiarizado nesses seus 30 anos de carreira. “Isso acontece muito quando estou desenhando para um cliente, para fazer uma roupa sob medida. As pessoas falam que os homens são frios, e é muito pelo contrário: o homem é muito intenso. Quando ele faz um terno sob medida, questiona tudo, acabamentos, forro. A alfaiataria tem esse poder de mexer com o corpo, de corrigir postura, tem um monte de detalhes que uma roupa sob medida pode ajudar”, conta ele. “Como faço várias provas no cliente, ainda depois desse primeiro encontro, as facetas continuam brigando.”

Assim como para João Pimenta essa se trata da primeira incursão pelo cinema, para a Sagaz Filmes, esse é o primeiro projeto de conteúdo nessa área de moda. “Queríamos uma narrativa com começo, meio e fim”, ressalta a diretora Renata Sette. “São cinco personagens, cada um representando uma dessas facetas. Isso veio da ideia do João. A partir disso, foi um insight muito legal de roteiro. Como a roupa muda o estado de espírito? Quando a roupa é bacana, você se sente bem. A gente foi nessa construção.” 

Silvia Sivieri, produtora executiva de Anthropos e diretora executiva da Sagaz, tem planos para que o curta percorra festivais e que também seja exibido durante o período da próxima São Paulo Fashion Week, em outubro. “E também usar esse projeto para contar a história do João, da produtora”, completa Silvia. Já João Pimenta planeja utilizar suas redes sociais para divulgar a nova empreitada a seus seguidores/clientes. “Para mim, esse filme é mais uma vitória, isso de misturar moda com arte. Enaltece bastante meu trabalho como estilista. Sempre busco deixar essa veia artística forte dentro do trabalho. Consigo bastante espaço para trabalhar com figurinos com artistas, vestindo pessoas que têm que marcar uma presença”, diz o estilista. “Não acho que moda seja arte, porque a roupa não é feita para pôr na parede. Mas acho que ela tem uma função forte de comunicação.”

Há tempos, João flerta com a arte, em outros níveis. Até hoje, o estilista contabiliza mais de 50 figurinos produzidos para teatro, dança e shows. Entre seus trabalhos mais recentes, estão os figurinos para a peça Chet Baker – Um Sopro, com Paulo Miklos (com quem o estilista vai fazer um novo trabalho), para a banda Cachorro Grande, que acaba de iniciar uma nova turnê, e para o grupo Balé da Cidade de São Paulo. Para a peça Leite Derramado, adaptação do livro de Chico Buarque, com direção de Roberto Alvim – e estreia prevista para 15 de setembro –, ele está em fase de criação dos looks. Mas já adianta o caminho que seguirá. “É um espetáculo que vai ser mostrado em vários outros países, e conta a história do Brasil. Então, há vários ícones dentro do trabalho que são bem de Brasil, como índio, cangaceiro, esses personagens que são bem característicos daqui, mas existe a preocupação de passar uma imagem não óbvia, não literal do País.” 

Para cada área, um processo diferente. Se, na dança, é preciso que o figurino esteja a serviço dos movimentos do bailarino e, nos shows, exista a liberdade de ‘transgredir’ no visual, no teatro, João Pimenta fica à disposição das orientações do diretor. “É preciso suprir o que o ele quer. Então, muitas vezes, não faço meu desejo. Quando tenho abertura, jogo todo o meu criativo, mas, quando já tem uma coisa superdefinida, eu executo, porque você está entrando dentro do projeto do outro. Quando faço um trabalho e a pessoa fala que o figurino foi demais, que apareceu mais que a peça, penso: ‘puxa, deu tudo errado’. A ideia de um espetáculo é que nada sobressaia.”

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