Estilista Dener, criador da alta costura brasileira, morria há 35 anos

Paraense ousou ao salpicar um tanto de brasilidade e cor às formas dos vestidos clássicos em plenos anos 1960

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2013 | 20h40

Se hoje a moda nacional se orgulha de ser reconhecida internacionalmente por seu ‘Brazilian life style’ e exporta um estilo que combina sofisticação com despojamento, muito se deve a Dener Pamplona de Abreu. Foi este paraense quem, em plenos anos 1960, quando sinônimo de bem vestir no Brasil era seguir religiosamente a cartilha da moda europeia, ousou salpicar um tanto de brasilidade e cor às formas dos vestidos clássicos. Mais que ‘andar na moda’, para Dener o importante era caminhar com personalidade, Sempre inspirado nas formas clássicas e nas bases simples, criava de vestidos de festa a peças mais básicas sempre pensando no estilo, tipo físico e idade de quem os vestiria. Para arrematar, sempre levava em conta o clima tropical do Brasil. O resultado, em vez de looks que mais se pareciam com melancólicas cópias mal sucedidas almejando um inverno que o País nunca vai ter, era uma alta costura colorida, cheia de vida e pulsante. 

Dener dizia que para ele havia uma grande diferença entre a mulher bem vestida, a chique e a elegante. De olho nas tendências, que são lançadas pelas elegantes, ele idealizou e criou uma nova categoria: a mulher luxo. “Mulher luxo: quando aparece no salão, todos sabem que alguém chegou e não é a governante! A mulher luxo é fora de série, hors concours. Criei essa classificação para acompanhar o desenvolvimento brasileiro”, afirmou o estilista em sua autobiografia Dener, o Luxo, lançado pela Editora Laudes. Para ele, a mulher luxo não lança, mas consagra a moda lançada pelas elegantes.

Nos atribulados anos 60 e 70, a mulher brasileira queria entrar no circuito internacional da moda e Dener estava no lugar certo, na hora certa. Seu estilo único chamou a atenção das famosas e celebres de então. E ele, que dizia que preferia deixar os bordados, luxos e a dramaticidade para looks de festa e de noiva, ganhou o coração e a preferência da primeira dama Maria Teresa Goulart (mulher de João Goulart, presidente do Brasil entre 1961 e 1964). 

Antes, ao criar o vestido de debutante de Danuza Leão, em 1953. Ela gostou tanto que o apresentou a Ruth Silveira, com quem vai trabalhar. Aos 21, ele já tinha seu próprio ateliê, na então nobre Praça da República. Em 1958, Dener transfere seu ateliê para a aristocrática Avenida Paulista e passa a vestir famosas. Entre elas, a primeira dama, Sara Kubitschek. 

Em sua trajetória, o estilista, que começou como um aprendiz talentoso, aos 13 anos, na conceituada Casa Canadá, no Rio de Janeiro, construiu uma reputação única. “Devo muito à Casa Canadá que foi minha primeira escola. Até os 17 anos aprendi ali os grandes segredos da alta-costura, aprendi a diferença entre ser vedete e ser vulgar, aprendi a viver, usando a força, para fazer o que me desse na veneta”, afirmou ele em sua autobiografia. 

É esta carreira construída com bases sólidas e traços elegantes, mas também com arremates de irreverência, humor ácido e personalidade forte, que transformou Dener em sinônimo de elegância, feminilidade e caráter próprio para a moda brasileira. 

O impacto de suas criações foi tamanho que ele despertou o interesse dos fashionistas internacionais. Quando Christian Dior morreu, em outubro de 1957, foi sondado pela maison para substituir o criador da grife francesa. Mas não aceitou. Tinha outros planos muito mais próprios. 

Trinta e cinco anos depois de sua morte (Em 9 de novembro de 1978, aos 41 anos, em decorrência de uma cirrose hepática), seu legado está em cada novo look das passarelas brasileiras. E mais do que nunca, há a certeza de que conseguiu atingir seu objetivo. “O que eu pude fazer para chocar e chamar a atenção eu fiz.” 

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