Estigma

É difícil acreditar que não exista, entre os militares, uma corrente, ou talvez até uma maioria, que reprova a atitude dos clubes de reformados das forças armadas em relação à Comissão da Verdade e ao esclarecimento final do que houve nos anos de rebeldia e repressão. Dos clubes militares só se pode esperar bravatas vazias mas ignora-se até que nível vai a mesma insubordinação entre os da ativa. Entende-se a resistência a remexer lama antiga mas é impossível que se continue a sonegar à Nação uma parte tão importante da sua história. E é impossível que ainda confundam a preservação da honra da instituição militar com o silencio, e prefiram o estigma das acusações nunca investigadas ao esclarecimento.

Luiz Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h10

Legado. Dizem que o legado mais importante de qualquer presidente americano não são suas obras, suas escolhas econômicas ou sua herança política, são suas nomeações de juízes para a Corte Suprema. Os juízes supremos, com suas decisões e interpretações da lei, são os que determinam os rumos do país, seja quem for o presidente - que é apenas temporário, enquanto eles costumam ser longevos. A Corte Suprema americana (muito mais marcadamente do que a nossa, onde há algumas figuras intermediárias) se divide em conservadores e liberais, e nos últimos anos tem sido dominada pelos conservadores. Que, apesar da antipatia declarada da maioria por uma Corte muito "ativista", tem se metido bastante em política. Foi a atual Corte, com duas ou três exceções, que literalmente doou a reeleição ao Bush, quando houve aquele problema da recontagem dos votos para ele e para o Gore na Flórida e havia a ameaça de que a recontagem favoreceria o Gore. A Corte mandou parar a recontagem. Estes mesmos juízes, quase todos nomeados por republicanos, estavam infernizando a vida do Obama, que tenta criar um programa de saúde pública que só os Estados Unidos não têm, entre as potências industriais do mundo, e que os juízes retalharam.

Caça-níqueis. A mesma Corte Suprema americana decidiu eliminar qualquer limite ao que empresas e corporações podem doar aos candidatos a cargos públicos em campanha. Antes, claro, já davam muito dinheiro escondido, ou você pensa que a Caixa 2 foi inventada no Brasil? Agora podem dar às claras, e quanto quiserem. E os candidatos prometerem o melhor governo que o dinheiro pode comprar. No Brasil deveríamos fazer o mesmo, uma espécie de leilão em que o candidato se ofereceria abertamente ao maior patrocinador com o compromisso de defender seus interesses no governo ou no Congresso. O que nos pouparia de espetáculos melancólicos como o do Demóstenes - claramente uma vítima do sistema atual de financiamento de campanhas - negociando apoio clandestino com o rei dos caça-níqueis

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