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Esticar para adensar

Anna Muylaert explica por que 'Para Aceitá-la Continue na Linha' ganhou versão longa e virou 'Chamada a Cobrar'

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h15

Anna Muylaert não para. Agora mesmo ela finaliza a série As Canalhas, na GNT, e escreve o roteiro do novo longa de Cláudio Assis, Piedade. O título refere-se ao bairro - à praia - do Recife, e ao mesmo tempo aponta para um mundo de conflitos violentos, onde faltam justamente compaixão e piedade. As Canalhas poderia ter originado um bate-boca, porque uma diretora da GNT veio a público falar mal da série. Ficou falando sozinha, porque não houve réplica para suas críticas à suposta falta de qualidade da série. Você pode incrementar o debate, ou pelo menos conferir se tem cabimento, assistindo hoje ao episódio Roberta, sobre uma Don Juan gay.

Mas o que você deve fazer - é uma sugestão, claro, não uma ordem - é assistir a Chamada a Cobrar. Como telefilme - e com o título de Para Aceitá-la Continue na Linha -, o projeto já integrou a programação da TV Cultura. Anna até já fez outro telefilme depois, e na própria Cultura, que já foi ao ar. O outro ficou de bom tamanho, e Anna tem o maior orgulho da história de Além de Tudo me Deixou Mudo o Violão, título que sai da Rita, de Chico Buarque. Já o caso de Chamada a Cobrar foi diferente. "Durante a realização de Para Aceitá-la, eu já sentia que estava sacrificando o melhor da produção e que foi uma coisa não planejada. Surgiu por acaso." Ela tinha uma história, um roteiro, sobre essa mulher que recebe uma chamada a cobrar, e é de um criminoso que a ameaça com o sequestro relâmpago de uma filha.

Ocorre que Ana filmou (em digital) com uma diva do teatro paulista, Bete Dorgam. Ao vê-la na peça El Dia Que Me Quieras, Anna decidiu que precisava filmar com aquela mulher maravilhosa. A parceria concretizou-se em Para Atendê-la e a diretora ensaiou, durante duas semanas, a relação da protagonista com as filhas. O 'criminoso' foi mantido à parte, e só falava com ela por telefone, como na trama. Em busca do ator para dar voz ao personagem, Anna testou - por telefone - vários integrantes do grupo Voz do Morro, do Rio. Não havia essa coisa de se apresentar, como vai? Os caras pegavam o telefone berrando, e intimidando. O mais impressionante deles foi Pierre Santos, que ganhou o papel. Ao vivo, o cara é super gente boa, é o protótipo do bom moço e não é, fisicamente, intimidador. No telefone, era outra coisa.

A diretora conta - "Foi no telefone, num diálogo tenso que extrapolou o que estava escrito, que Bete e Pierre desenharam o conflito de classes que transformou a chamada a cobrar numa metáfora do abismo social que ainda persiste no Brasil." Anna percebeu de cara que não poderia colocar aquilo no telefilme. Muito menos queria perder o que estava ficando muito bom - e é. Anna não contesta a crítica, mas se espanta quando ouve dizer que o telefilme, esticado, perdeu o impacto. Como, se era só uma história e virou uma coisa muito mais densa? A própria ideia de que o sequestro relâmpago já era e que isso data o filme lhe parece estranha. Mesmo que fosse datado, seria um documento. Mas ela mostrou o filme para um executivo da Sony, em Nova York, e ele ficou chapado.

Críticos muitas vezes cobram sutileza, detalhes, mas não veem quando eles estão um palmo diante do seu nariz. Mas foi por tudo isso que Para Aceitá-la ainda nem havia estreado na TV e ela já sonhava com a versão mais longa, para cinema. Mesmo que você já tenha visto, reveja - porque não é a mesma coisa. Anna mudou a trilha, a própria estrutura. Os 'bandidos' apareciam no começo, agora aparecem no fim. E o miolo cresceu. A solidão da mulher permanece, mas o conflito de classes - classe média alta versus marginalidade urbana - aumentou e virou o mais forte. Se não fosse por isso, e Anna tem consciência do que fez, Chamada a Cobrar teria permanecido um telefilme, como E Além de Tudo, que a diretora não viu o menor sentido em querer esticar.

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