Estética política

Urso de Ouro de A Separação consagra proposta do cineasta Asghar Farhadi

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h07

Há um incidente em A Separação que talvez passe despercebido, mas que o diretor Asghar Farhadi considera muito importante no filme que estreia hoje. Antes de falar do filme, propriamente dito, é bom destacar que A Separação tem conhecido verdadeira consagração internacional. Em fevereiro do ano passado, ganhou o Urso de Ouro em Berlim e, depois, foi convidado para vários eventos de cinema, recebendo verdadeira consagração em Londres e Toronto. Na quarta, foi confirmado como um dos finalistas para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro do ano, representando o Irã. (Mais uma vez, a Academia ignorou o concorrente brasileiro, Tropa de Elite 2, de José Padilha, mas essa é outra história.)

O incidente é o seguinte - o casal do filme contrata trabalhadores braçais para tirar um piano do apartamento. O piano, num determinado momento, impede o caminho da mulher, Nissim. Pode-se ver, aí, quem sabe, uma metáfora da condição da mulher na sociedade iraniana, mas não é o que importa. Como o piano é pesado e a tarefa se revela difícil, os carregadores pedem mais dinheiro, que Nissim lhes dá. Se fosse o marido, Nader, não daria. É uma cena que nem existe no filme, mas para Farhadi ilustra as diferentes posições, ou perspectivas, do seu casal, ou de homem e mulher na sociedade do Irã.

Nader é mais rígido na defesa de certos princípios, aos quais se atém. Nissim é mais prática e, portanto, flexível. Ela quer sair do Irã levando a filha. Nader insiste em ficar e usa até de um subterfúgio - ele não pode deixar o pai doente, que sofre de Alzheimer. A doença do pai, por sinal, desencadeia o verdadeiro incidente em A Separação. O casal contrata uma empregada para atender às necessidades do idoso. Ela é casada com um desempregado. A luta de classes entra no relato quando o empregador é acusado de uma violência contra a doméstica. O caso vai à polícia. Antes disso, o casal já foi a um juiz, por causa do desejo da mulher de se separar (e partir). O filme termina em suspense, à espera da decisão da filha - você vai ter de ver A Separação, para captar as nuances da situação.

Um Urso de Prata, por Procurando Elly; outro de Ouro, por A Separação (e o filme também ganhou o Globo de Ouro). A carreira de Farhadi é uma das mais bem-sucedidas da atualidade. No filme anterior, ele fez um retrato da sociedade iraniana por meio desses amigos que se reúnem numa casa de praia. São casais de jovens da classe alta e com carreiras definidas. O grupo desestabiliza-se quando uma das mulheres desaparece. O que ocorreu com Elly? O casal de A Separação poderia ter saído do outro filme, só que agora enfrenta a doença e o conflito provocado pela diferença de classes. A doméstica, como Nader, é ortodoxa, em termos de religião, mas ambos mentem na história, e esta é uma das complexidades do filme.

Em Berlim, falando em farsi, Farhadi explicou a gênese de seu filme. "A história possui muitos elementos pessoais, mais do que autobiográficos. O pai vítima de Alzheimer é uma reminiscência de meu avô, ao qual era muito ligado. A filha é interpretada por minha filha e nossas cenas têm muito do que é nossa relação em casa, mas eu não sou Nader. Na verdade, sinto-me muito mais próximo de Nissim." Apesar disso, se há uma coisa em que Farhadi não pensa é em deixar o Irã. "É lá que eu tenho de continuar com meu trabalho. Seria um deslocado, em qualquer outro lugar."

Mas ele é deslocado no próprio país. Como membro da elite, Farhadi foi bem educado no Corão. O problema, claro, não é Alá, o Misericordioso, mas o uso que a política tem feito da religião no Irã. Havia, durante todo o Festival de Berlim de 2011, uma cadeira vazia nas sessões oficiais dos filmes concorrentes. Deveria ser ocupada por Jafar Panahi, que teria integrado o júri, se não tivesse sido confinado pelo regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Em Cannes, no ano passado, o próprio Panahi deu seu testemunho com um filme clandestino, sugestivamente chamado Isto Não É Um Filme. Era interessante, mas a diferença é que A Separação, isso sim, é um filme.

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