Estética, política e muitas questões pertinentes

Análise: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h07

Foram tantos os percalços no caminho que o cinéfilo se arrisca a chegar sem bússola à 85.ª festa da Academia. Em dezembro, quando os críticos dos EUA começaram a divulgar suas listas de melhores, a disputa era travada entre Steven Spielberg, por Lincoln, e Kathryn Bigelow, por A Hora Mais Escura. Ele confirmou o favoritismo com o recorde das indicações para os melhores de 2012. Ela não conseguiu cavar a indicação para o prêmio de direção - como Ben Affleck, que também concorre a melhor filme (e a outras estatuetas), mas não a melhor diretor.

O curioso é que o favoritismo de Spielberg foi derrubado nas prévias das Guilds, nas quais Lincoln só ganhou mesmo o prêmio de melhor ator (para Daniel Day-Lewis). As ligas dos produtores e até a dos diretores deram seus prêmios para Argo. Mas se o filme de Affleck não concorre ao Oscar de direção, isso significa que Spielberg tem chance esta noite?

É o Oscar da política, e até isso deveria favorecer Spielberg. Afinal, com sua trilogia informal, formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, ele deu o testemunho crítico mais consistente sobre os EUA no pós-11 de Setembro (e sem fazer uma referência ao ataque às torres gêmeas).

Lincoln descende de Amistad na obra spielbergiana. É um grande filme e, para o espectador brasileiro, que sobreviveu ao mensalão, coloca questões deveras interessantes. Lincoln, sobre o ícone da democracia, não deixa de ser o mensalão de Spielberg - toda aquela história de apoio para reformas no Congresso norte-americano. No toma lá dá cá, quer dizer que um certo grau de flexibilidade (corrupção?) é compatível com a democracia? Deve ser, porque o próprio ex-presidente Bill Clinton foi fazer o elogio do filme de Spielberg no Globo de Ouro.

De Blue Steel até A Hora Mais Escura, o cinema de Kathryn Bigelow coloca outro tipo de questão, também interessante. A policial de Jogo Perverso (título revelador) era uma protofeminista, como Jessica Chastain na caçada a Osama Bin Laden. E como em Guerra ao Terror, que lhe deu o Oscar, Kathryn discute o cinema (a estética como a política).

O que o antiterrorista Jeremy Renner via no quadrado da sua máscara era o formato da tela, como agora a maioria das ações é vista a distância, por meio de monitores. Kathryn diz que quis fazer um filme jornalístico - mas não isento, como a imprensa não era no tempo de George W. Bush.

Falta pouco para o anúncio dos vencedores. And the Oscar goes to... Existem bons filmes, bons diretores, bons atores. Falta quem? No ano de Munique, o Oscar de melhor filme estrangeiro tinha seu contraponto no palestino Hany Abu Assad, de Paradise Now. Este ano, faltou o contraponto de A Hora Mais Escura, que seria o marroquino Les Chevaux de Dieux, Os Cavalos de Deus, de Nabil Ayouch. Para que contraponto, se a Bigelow não vai ganhar?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.