Estética kitsch e pretensão sem base estragam boa ideia

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h08

W.E. parte de uma boa ideia: na história do rei que abdicou ao trono por amor, faltava o ponto de vista da mulher. "Falou-se muito de tudo a que Edward renunciou para ficar com Wallis; mas, de certa forma, a mulher foi esquecida. Ela também deve ter renunciado a muita coisa e esse é o lado que mais me intrigava nessa história", afirmou Madonna no Festival de Veneza, onde seu filme foi considerado uma nulidade completa pela maior parte dos críticos.

Se você assistiu a O Discurso do Rei, sabe que o monarca gago assumiu o trono quando seu irmão, Edward VIII, renunciou para se casar com a divorciada norte-americana Wallis Simpson. Esse caso, chamado pelas revistas de celebridades da época de "o caso de amor do século", é o tema escolhido por Madonna. W.E. são as iniciais de Wallis e Edward.

O filme usa um recurso narrativo para contar essa história. Trabalha em dois tempos, um no presente, com uma mulher mal-amada, Wally (Abbie Cornish), outro nos anos 1930, com o love affair entre Wallis (Andréa Riseborough) e Edward (James D'Arcy). Wally é casada com um psiquiatra alcoólatra e violento. O casal não tem filhos. A mulher consola-se num processo de identificação com Wally e tudo o que ela representa em termos do mito da renúncia amorosa. No passado, Wallis expressa o que sacrificou em termos pessoais para viver o seu caso real. O filme seria uma meditação sobre o preço que as mulheres pagam pelo amor. Simples assim.

Para desenvolver suas ideias a respeito, Madonna usa um visual kitsch, rebuscado ao nível do inverossímil, em que o preciosismo dos gestos ou cenários nunca é utilizado por seu valor narrativo. Mesmo porque não existe realmente um ponto de vista autoral no filme, mas apenas uma espécie de lamento da mulher independente diante dos fatos que narra.

Teme-se, assim, que a Wallis Simpson retratada seja apenas um anacronismo - alguém em seu tempo histórico, mas visto e julgado pelo olhar e valores do presente. Apenas que, para fazê-lo, Madonna usa outra personagem tão anacrônica quanto a do passado, Wally, humilhada e ofendida por um marido doente, buscando consolo num guarda de segurança russo. Não é à toa que o filme cause estranheza. Ele é estranho mesmo, em sua pretensão sem base sólida, com suas peças dispostas de maneira artificial, num formalismo frio que mais afasta que aproxima o espectador.

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