Arquivo/AE
Arquivo/AE

Estética da incompletude

Com uma prosa que se mantém atual até hoje, produção do filósofo espanhol José Ortega y Gasset mostra sutileza

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA,

14 de janeiro de 2012 | 03h00

O livro Ensaios de Estética é composto por textos de José Ortega y Gasset (1883- 1955) consagrados a pintores e quadros emblemáticos. Aliás, a pintura é uma arte chave na formação do pensamento orteguiano. Para o autor de Meditações do Quixote, o filósofo, mais do que um forjador de abstrações, deve se comportar como um autêntico espectador.

Em outras palavras, o filósofo sempre fala a partir de um ponto de vista determinado, em estreito comércio com as circunstâncias de sua biografia e de seu tempo. O pensamento filosófico, portanto, adquire forma própria nesse corpo a corpo. Princípio sintetizado na frase sempre citada - "Eu sou eu e minha circunstância" - embora nunca reproduzida na íntegra: "Eu sou eu e minha circunstância e, se não a salvo, não me salvo".

Os ensaios coligidos em Ensaios de Estética esclarecem a força da metáfora (e do método) do espectador e, ao mesmo tempo, permitem compreender a segunda parte da frase-valise de Ortega y Gasset.

Vejamos como isso ocorre através do estudo breve de dois textos, Mona Lisa, publicado no jornal La Prensa, de Buenos Aires, em 15 de outubro de 1911, e Velázquez, saído em 1950, em Papeles sobre Velázquez y Goya.

No dia 20 de agosto de 1911 a Mona Lisa foi furtada do Museu do Louvre e recuperada apenas dois anos depois em Florença. A história é bem conhecida, por isso mesmo só vale a pena mencioná-la para melhor apreciar o gesto de Ortega y Gasset como espectador de seu tempo. O ensaio foi escrito em Marburgo em setembro do mesmo ano, sob o impacto da notícia: na época, ninguém sabia do paradeiro do quadro e não se dispunha de pista alguma sobre o furto. A desorientação era tão grande que Picasso chegou a ser interrogado pela polícia francesa como o principal suspeito!

Pois bem: em meio ao caos, e bem no calor da hora, Ortega y Gasset escreve um ensaio definitivo. Após uma abertura perfeita - "Deus pôs a beleza no mundo para que fosse roubada" -, o filósofo surpreende no furto a realização inesperada do projeto estético de Leonardo da Vinci.

A sutileza do raciocínio merece ser destacada.

O pintor florentino talvez possa ser considerado o grande cultor da estética da incompletude. Sua obsessão em corrigir, emendar, retocar as telas o levou a adotar a pintura a óleo em lugar do afresco. De fato, ele foi o primeiro pintor italiano de importância a fazê-lo. Ora, a técnica holandesa, ao contrário do afresco, possibilita intervenções infinitas na "mesma" tela. No afresco, as tintas secam rapidamente, o que desfavorece a realização de constantes retoques e adições posteriores. Já a pintura a óleo, permite que o quadro "nunca" seja concluído, pois é sempre possível acrescentar novas camadas de tinta, criando um interminável palimpsesto de cores. Fichte julgava infinita a tarefa do pensador, Leonardo já o sabia e como, em suas palavras, "pintura é coisa mental", uma tela que sempre se revisita é uma página filosófica que nunca se termina de ler. Não se trata, pois, de arte para ser "vista", mas para fazer pensar.

Daí, e com base nos dados conhecidos em 1911, o ensaísta espanhol vislumbra no roubo as autênticas memórias póstumas de Leonardo da Vinci, cujas obras conheceram um destino singular: "Só restam sete obras pictóricas de Leonardo e, dessas, só uma chega a nós em bom estado, a pequena Anunciação do Louvre, uma obra da mocidade". Vale dizer, é como se as obras oferecessem uma resistência decididamente estética à ideia de fixidez e completude. Desse modo, mesmo sem sabê-lo, Vincenzo Peruggia, o ladrão da Mona Lisa, foi um colaborador involuntário do pintor: "Leonardo foi (...) uma enorme aspiração em direção ao impossível". No caso, uma obra de arte em estado de perpétua fatura, que, por isso mesmo, nunca deveria ser contemplada como exemplo canônico de obra-prima, mas, pelo contrário, deveria suscitar exercícios estéticos numa espiral infinita de releituras.

Logo após o roubo, uma multidão correu ao Museu do Louvre para contemplar o espaço vazio, antes ocupado pela tela. Diante da parede em branco, talvez muitos tenham compreendido que a pintura é mesmo uma coisa mental... Finalmente, Leonardo realizou a obra de arte que sempre lhe escapou: puro conceito.

O espectador Ortega y Gasset, portanto, transforma o furto da Mona Lisa numa chave renovada para o entendimento do pensamento pictórico de Leonardo da Vinci.

O estudo sobre Velázquez é também impressionante.

De fato, além de estudo biográfico e estético, o ensaio é um verdadeiro retrato, no qual as frases fazem as vezes de pinceladas e sua precisão recorda a perfeição do estilo do mestre de Sevilha. O leitor julgará se me excedo: componho um mosaico de frases-pinceladas, acompanhando o ritmo da prosa de Ortega y Gasset.

"Sabemos pouco de sua vida, porém esse pouco nos mostra que, a rigor, não necessitamos saber mais."

"Velázquez é um pintor que se caracteriza por... não pintar, ou seja, pelo pouco que pinta."

"Constrói o quadro com poucas pinceladas. (...) Mais ainda: a maior parte dos quadros de Velázquez são quadros sem terminar!"

"Eu vejo em Velázquez um dos homens que mais exemplarmente soube... não existir."

Na compreensão de Ortega y Gasset, o pintor sevilhano seria o mais radical artista da contenção, mesmo da negatividade - e isso em pleno domínio da estética barroca.

Aliás, caminhar na contracorrente foi a direção estética de Velázquez. Os gêneros dominantes em sua época eram a pintura religiosa e mitológica. Os demais exercícios - natureza-morta e retrato, por exemplo - eram vistos como artisticamente inferiores.

Velázquez, na iluminada interpretação de Ortega y Gasset, decide privilegiar gêneros ditos menores, pois, ao fazê-lo, conquista uma liberdade estética que antecipa pelo menos dois séculos da história da pintura! Seu projeto estético exigiu esse gosto pela insularidade artística.

De um lado, Velázquez buscou retornar à materialidade das coisas. Contudo, entenda-se bem o que se diz, pois se trata do oposto de um realismo chão. Afinal, "as coisas em sua realidade (...) são apenas aproximadamente elas mesmas (...) flutuam em uma margem de imprecisão que é sua verdadeira presença". A natureza-morta, portanto, na sua ausência de tema religioso ou clássico, fornece uma espécie de motivação abstrata: numa tela composta por frutas, garrafas e objetos quaisquer, mais do que sugerir uma narrativa, o pintor deve equilibrar cores, formas e volumes. Arte pura, pois - ou quase; palavra adequada para Velázquez e Leonardo. E, sobretudo, sem idealizar os elementos, dando-lhes contornos perfeitos e harmonias inexistentes na concretude assimétrica das coisas no mundo.

De outro lado, princípio similar determina a centralidade do retrato na paleta de Velázquez. Afinal, o sevilhano "vai fazer do retrato o princípio radical da pintura". No retrato, ele busca o impossível: apresentar o instante que, no ato mesmo de registrá-lo, já não é mais o que tinha sido na hora da fixação de sua imagem. A missão da pintura, portanto, também implica o verdadeiro desafio estético: "Dar eternidade precisamente ao instante". Com essa nota aguda, o filósofo espanhol antecipou a conclusão do celebrado estudo de Michel Foucault sobre Las Meninas. Nas palavras do autor de A Desumanização da Arte: "Enfim, tem-se aí As Meninas, onde um retratista retrata o retratar".

Vale dizer, tanto Leonardo quanto Velázquez descobriram no ato de pintar uma forma de pensar a própria pintura. De igual modo, eles surpreenderam na incompletude a mais completa tradução de um pensamento em moto-contínuo.

Por sua vez, investigar as condições do pensamento é a lição maior desses Ensaios de Estética. Espectador ímpar, Ortega y Gasset é um mestre do ensaio, cuja prosa mantém-se tão atual hoje como o foi na circunstância que buscou salvar.

Uma última palavra (justa e necessária) sobre a excelência da tradução e da organização de Ricardo Araújo. Pesquisador minucioso, comprometido com a reflexão sobre o pensamento de Ortega y Gasset, e em parceria fecunda com a Editora Cortez, Araújo tem preparado edições exemplares de títulos do pensador espanhol. Esperemos que essa iniciativa favoreça a retomada do pensamento orteguiano, cuja fortuna no Brasil sempre foi rica e produtiva.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

ENSAIOS DE ESTÉTICA - MONA LISA, TRÊS QUADROS DO VINHO E VELÁZQUEZ

Autor: José Ortega y Gasset Tradução: Ricardo Araújo

Editora: Cortez

(224 págs., R$ 35)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.