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Esteta pateta

Cheio de admiração e inveja, andei falando aqui de dois autores – Murilo Rubião e Raduan Nassar – cujo perfeccionismo deveria ser arremedado por seus pares, a começar, não precisa me dizer, por aquele que todas as semanas inunda este espaço com sua prosa pedestre. Tiro a eles meu imaginário chapéu, e peço licença para acrescentar outros nomes ao restrito time dos artistas que, no limite de suas forças, relutam em dar por concluído o trabalho de criação.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2016 | 02h00

Um deles é Otto Lara Resende, sobretudo o Otto ficcionista: possuído por aquilo que o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, seu cupincha vitalício, diagnosticou como caso agudo de bibliofobia – o pavor de se ver editado –, ele resistiu o quanto pôde aos apelos para permitir relançamento dos poucos livros que aceitara publicar. Ao morrer, em dezembro de 1992, estava empenhado em “despiorar”, como dizia, seu único romance, O Braço Direito, batalha que consumiu os três anos finais de sua vida e da qual resultou praticamente um livro novo. “A esta altura já nem sei”, queixou-se Otto, “se é braço direito ou braço esquerdo”. Estava nos arremates do último capítulo quando complicações de uma cirurgia da coluna o levaram.

No mesmo ano, em maio, recebi dele um exemplar de O Elo Partido & Outras Histórias, coletânea que só existiu por insistência do amigo Dalton Trevisan, com o qual, aliás, trocou farta correspondência, ainda inédita, que espero poder ler um dia. Na folha de rosto, veio a informação de que os contos haviam sido “especialmente revistos pelo autor”. E eis que, ao folhear o livro, ainda quente das máquinas, me deparei com a letrinha de Otto, espremida no entrelinhamento mesquinho para retocar seu “Mater Dolorosa”, cuja primeira versão, em As Pompas do Mundo, de 1975, mal acabara de ser retrabalhada para O Elo Partido.

Assim como no caso de Murilo Rubião e Raduan Nassar, valeria cotejar as sucessivas versões da ficção de Otto Lara Resende, como forma de compreender o caminho por onde veio o artista na busca da perfeição. Era um mestre, e disso tive prova adicional em março de 1992, quando ele generosamente se dispôs a ler os originais de meu O Desatino da Rapaziada, dos quais por nada deste mundo me desfaço, corrigidos e anotados, a lápis, página por página.

Ao time dos perfeccionistas da palavra pertence também Cyro dos Anjos, outro reescritor impenitente. Tão obsessivo que, a crer no que me contou Autran Dourado, por pouco não estragou coisa já perfeita, O Amanuense Belmiro. Nas primeiras páginas do romance, ambientado na Belo Horizonte dos anos 1930, um personagem se queixa da vidinha naquela “cidade besta”, onde “a gente não tem para onde ir”, e alguém rebate: “Em Paris é a mesma coisa”.

Pois bem: não fosse Autran, Cyro teria capado a espontaneidade da observação, engravatando-a em algo como “o mesmo se passa em Paris”. Graças a tão competente anjo da guarda, ele teve mais sorte que Murilo Rubião, a quem, na juventude, pedi – e obtive –, conforme já contei, que escorraçasse do conto “O Ex-Mágico” a palavra “despautério”.

(Desolado ainda com as consequências de tamanha sem-cerimônia, vou à estante, confronto as duas versões e passo adiante a tarefa de saber – cartas à Redação... – se Murilo fez bem ou mal em acolher a sugestão do fedelho:

“Não me foi possível refrear a raiva, ouvindo tal despautério: matei os leões e comi-os todos, esperando que morresse, vítima de uma fatal indigestão.”

“Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.”)

Não costumo ser tão palpiteiro, mas houve outra ocasião em que meti colher em obra alheia – e logo de quem, de Raduan Nassar. Numa resenha elogiosa sobre Menina a Caminho, aqui no Estado, impliquei com expressões que bateram mal nos meus ouvidos de esteta pateta. São tão poucas as imperfeições neste livro, argumentei, que não custa pedir ao autor que se detenha, na hora de reeditá-lo, em passagens a meu ver cacofônicas, como “barriga gorda”, “bico grosso” e “casca grandona”.

Raduan não se deteve na impertinência do comentarista – que acabou levando uma carraspana presencial de José Saramago. Quando fui entrevistá-lo para a Playboy em sua casa, na ilha de Lanzarote, o romancista de Ensaio Sobre a Cegueira, a meses de ganhar o Prêmio Nobel, reconheceu o autor daqueles reparos, cuja leitura o deixara indignado – e trovejou: críticos e resenhistas não devem se meter a ensinar a um escritor como escrever, ora pois.

Meu consolo é o jovem Pedro Nava, que, numa roda de café em Belo Horizonte, ali por 1920 e poucos, leu poema recém-feito de um amigo, e, judicioso, declarou ao autor que os versos até não eram maus, mas que o forte dele, Carlos Drummond de Andrade, era a prosa, não a poesia.

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