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Estereotipagem

É difícil imaginar jogadores de futebol usando palavras como 'estereotipagem'

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 02h00

Arthur, do Grêmio, é uma das mais recentes revelações do futebol brasileiro. Como estava lesionado e não pôde viajar com o time para os Emirados Árabes (onde fez muita falta), foi convidado pela Globo para comentar os jogos do campeonato mundial de clubes - e foi outra revelação. Bem articulado e bom observador, mostrou-se uma raridade no mundo do futebol, um jogador que foge do estereotipo e da frase feita e diz mais do que o óbvio.

Mas a estereotipagem pode ser injusta. É difícil imaginar jogadores de futebol usando palavras como “estereotipagem”, mas não há por que pressupor que todos serão primitivos monossilábicos na hora de falar. Como Arthur, eles podem surpreender. 

- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.

- Minha saudação aos aficionados do clube e aos demais esportistas, aqui presentes ou no recesso dos seus lares, acompanhando a partida através dos modernos meios eletrônicos.

- Como é?

- Aí, galera.

- Quais são as instruções do técnico?

- Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada, com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe agudo com parcimônia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação.

- Ahn?

- É pra dividir no meio, ir pra cima e pega eles sem calça.

- Você está bem, fisicamente?

- Sim. Meu sistema metabólico, reagindo bem à aplicação de pressões seletivas, também chamadas de massagens localizadas, aliadas a recursos térmicos, conhecidos vulgarmente como “calor”, debelaram a anomalia que impedia minha dedicação integral às atividades em campo. 

- Como é?

- Tou bem, tou bem.

- Certo. Você quer dizer mais alguma coisa?

- Posso dirigir uma mensagem de caráter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?

- Pode.

- Uma saudação para a minha progenitora.

- Como é? 

- Alô mamãe!

- Estou vendo que você é um, um...

- Um jogador que confunde o entrevistador, pois não corresponde à expectativa de que o atleta seja um ser algo primário com dificuldade de expressão e assim sabota a estereotipagem?

- Estereoquê?

- Um chato?

- Isso.

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